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Paola Machado

Como o exercício combate o diabetes tipo 2 e os melhores treinos para isso

Paola Machado

18/05/2020 04h00

Crédito: iStock

O diabetes tipo é uma das doenças crônicas mais comuns em todo o mundo e, se não for tratada de forma adequada, pode levar a consequências negativas à saúde, como retinopatia (com potencial perda da visão), nefropatia (levando à falha renal), neuropatia periférica (risco de úlceras nos pés e amputações).

Somado a isso, já sabemos que idosos e indivíduos com essas comorbidades estão no grupo de risco e podem desenvolver casos mais graves de covid-19, segundo estudo do Journal of American Medical Association (JAMA). Vale lembrar que o risco de complicações na pessoa com diabetes bem controlado é menor, tanto para o diabetes tipo 1 quanto para o tipo 2. Por isso, é essencial estar com um bom controle glicêmico, o que implica em uma hemoglobina glicada dentro do alvo estipulado pelo seu médico (lembrando que a meta do valor da hemoglobina glicada é individualizado e existem patologias que falseiam esse valor, como as anemias).

Além do acompanhamento médico, quando se trata de gerenciar diabetes tipo 2, a mudança de estilo de vida com alimentação adequada e exercício é uma estratégia não medicamentosa muito eficaz, sendo importante para controle glicêmico e na manutenção do peso.

Eficácia do exercício

A insulina é um hormônio anabólico essencial para estimular a captação de glicose pelos tecidos (músculos, por exemplo) no repouso e após refeições, restaurando as reservas energéticas do organismo e contribuindo para diminuição e controle da glicemia no sangue.

O hormônio está com sua sinalização celular comprometida no diabetes tipo 2, resultando em diminuição da capacidade do organismo em captar glicose (açúcar) e, consequentemente, ocorre a permanência dessa glicose no sangue (hiperglicemia crônica), o que leva a diversas complicações (mencionadas anteriormente).

Um dos grandes benefícios do exercício físico para o diabetes é que durante a contração muscular a glicose é captada pelo músculo por via celular independentemente da presença ou ação da insulina. Em outras palavras, conforme o exercício é realizado, a glicose sanguínea contribui para geração de energia na musculatura, permanecendo alta sua a captação por horas após a atividade física, o que antes (repouso e pós-alimentação) não era possível. Isso resulta em diminuição do quadro hiperglicêmico e, quando associado a uma dieta adequada e hipoglicemiantes orais controlados, forma um tratamento efetivo para o diabetes tipo 2.

Em resumo, a ideia é que o paciente com diabetes tipo 2 se exercite de forma regular, para que o músculo não dependa tanto da ação hormonal (insulina) na captação da glicose, pois em princípio esta ação está prejudicada. Além disso, a perda de peso resultante do exercício planejado com dieta adequada vai melhorar a sinalização da insulina, podendo o organismo utilizar mais da via insulínica para captar glicose.

A partir daqui podemos pensar: quanto se exercitar? Que tipo de exercício? Musculação oferece este e outros benefícios?

Uma metanálise proposta por Umpierre et al. (2011) demonstrou de forma generalizada que o indivíduo com diabetes mellitus deve se exercitar em volume de treino mínimo de 150 minutos por semana para obter benefícios no controle glicêmico, pois o aumento da massa muscular (adaptação clássica desta modalidade) e a redução de peso corporal (associada à dieta adequada) promovem naturalmente melhora no quadro de resistência insulínica e controle glicêmico.

De acordo com Madden (2013), a intensidade do exercício tem impacto na sensibilidade insulínica. Quanto maior a intensidade, melhores os efeitos. Porém, o autor ressalta que essa intensidade deve ser tolerável, dentro de um limite que ofereça segurança, evitando lesões, por conta das complicações da doença frente a recuperação.

Parâmetros como intensidade –moderada (50% 1RM) a alta (75% a 80% 1RM) –, volume (5 a 10 exercícios para grandes grupos musculares, com 10 a 15 repetições), frequência (3 a 4 vezes na semana) estão estabelecidos para esta população.

Apesar do exercício resistido e exercício aeróbico resultarem nos mesmos benefícios em relação ao controle glicêmico (redução semelhante no teste HBA1c), quando executados de forma combinada ou concorrente, promovem benefícios adicionais, sendo considerado pelo Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM, 2010) a melhor opção para intervenção global nos quadros de diabetes mellitus com ênfase no tratamento do tipo 2 da doença.

No entanto, a duração e o gasto energético dos modelos de exercício concorrente, propostos na literatura, são maiores do que os modelos isolados de resistido e aeróbico, fazendo alguns autores questionarem se o benefício é da modalidade (concorrente) ou do maior gasto energético e duração prolongada.

Complementando a informação acima e também sugerindo uma forma de execução da parte "aeróbica" ou cardiovascular do treinamento concorrente, Little et al. (2011) avaliaram duas semanas de HIIT (6 sessões compostas por 10 sprints de 60 segundos na bike a 90% da Frequência Cardíaca Máxima, com 60"de recuperação ativa) para indivíduos com diabetes tipo 2 (média de 62 anos de idade).

Os autores observaram melhora no perfil oxidativo muscular (favorecendo a oxidação de gorduras), assim como no perfil glicêmico (aumento da quantidade do transportador de glicose para dentro da célula muscular, GLUT-4 e redução da glicemia ao longo de 24 horas).

Em 2016, a Diabetes Care, publicou um estudo mostrando que pessoas com diabetes tipo 2 tinham uma quantidade alta de gordura corporal, pouca musculatura e apresentavam quadros de fraqueza muscular, reforçando a importância do treinamento resistido por aumentar a massa muscular, aumentando a sensibilidade à insulina. 

Uma revisão de setembro de 2018 publicada na Endocrinology and Metabolism mostrou também que o ioga pode ser uma ferramenta eficaz no controle da glicemia, além de ajudar a auxiliar em outras condições relacionadas, como hipertensão.

Existem algumas razões pelas quais esses tipos de exercícios podem ser úteis, além de promover a prática de exercícios, eles também ajudam a reduzir o estresse, que demonstrou agravar o diabetes tipo 2.

Após avaliação médica detalhada e triagem para controle glicêmico, limitações físicas, medicamentos etc., o paciente com diabetes deve ser orientado de forma adequada para o treino. Lembre-se que não existe milagre, ou seja, o exercício físico não é uma prescrição primária para a pessoa com diabetes (independentemente do tipo), devendo ser incluso e encarado como uma terapia adjunta à dieta e agentes hipoglicêmicos no tratamento da doença.

Se você tem diabetes tipo 2, procure um personal trainer e nutricionista imediatamente e desfrute dos benefícios acima mencionados.

Referências:
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Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.