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Paola Machado

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Ortorexia nervosa: quando comer saudável não é saudável

Paola Machado

15/05/2018 04h00

Crédito: iStock

Cada dia que passa está cada vez mais difícil cuidar das pessoas.

Sempre que sento em algum lugar, começam a me fazer várias perguntas sobre saúde e fico perplexa como as pessoas estão se perdendo.

Esses dias um amigo me disse que se tornou celíaco por conta da retirada do glúten e intolerante à lactose por ter retirado o leite. Tudo feito sem orientação. Outro amigo que estava junto falou: "Não como nenhum tipo de carboidrato, pois, quando consumo o nutriente, parece que tem uma 'massa' descendo pelo meu pescoço!"

Olhei para um lado, olhei para o outro e pensei:  fico ou fujo?

As pessoas estão perdendo a noção do que é ser saudável. Tirar tudo e mais um pouco da vida não é ser saudável. A pessoa faz jejum intermitente, dieta low carb, não consome glúten e lactose. Não estou condenando nenhuma das escolhas, mesmo porque há vários estudos mostrando os benefícios, principalmente do jejum intermitente. Porém, será que as pessoas sabem, de fato, o limite delas? Será que buscam supervisão? Será que fazem as combinações alimentares devidas para suprir as carências nutricionais em dietas restritivas? Será que realmente sabem o que estão fazendo ou somando um monte de dicas e usando como uma só?

A saúde inclui: bem-estar físico e mental.

Não adianta nada você estar sentado comendo coisas saudáveis e pensando no bem ou no mal que isso pode te causar. Além do mais, nenhum alimento pode ser colocado no patamar de bom ou ruim, e sim da ingestão consciente. Isso tem um nome e é um estado patológico, chamado ORTOREXIA NERVOSA.

O que é ORTOREXIA NERVOSA?

A ortorexia nervosa é conhecida como um comportamento obsessivo patológico, caracterizado pela fixação em cuidar da saúde, por meio da saúde alimentar, qualidade dos alimentos e pureza na dieta.

É uma preocupação um tanto quanto exagerada na escolha dos alimentos, pensando na pureza dos mesmos, em alimentos "corretos" e "saudáveis" e ingestão de alimentos que deixem o corpo saudável.

Estou trabalhando há alguns dias nesse texto, pois é um tema muito reflexivo. De todas as pessoas que conheço no meu ciclo de amizades, quase todas devem sofrer de ortorexia nervosa. Só se fala de jejum intermitente, ingerir pouco carboidrato, fazer restrição de grupos alimentares. E as vitaminas? E os nutrientes? E o arroz e o feijão de cada dia?

É uma discussão constante que eu tenho com diversas pessoas. Afinal, por que a culpa é do alimento se é você que controla a ingestão? Quantas pessoas tiraram o ovo da alimentação, pois ele, em determinado momento, foi vilãnizado?!

As pesquisas são atualizadas sempre e é necessário critério e bom senso para avaliá-las. Como um estudo com 7 pessoas pode ditar uma estatística para uma população? Como um estudo agudo com um alimento pode dizer o que vai acontecer com o organismo em longo prazo? Por isso que as pessoas acabam vivendo um lenga-lenga de "agora só consumo óleo de coco", "vixe, óleo de coco faz mal, vou parar de consumir!". Vamos começar a rever nossa alimentação e nossas restrições?! Estamos chegando a um limite que, daqui a pouco, as pessoas estarão consumindo 300 calorias por dia e não conseguindo ficar em pé.

Características principais da ortorexia nervosa:

  • "Fixação em alimentação saudável, com mais de três horas ao dia de dedicação em torno da sua dieta.
  • Definição bastante rígida do que é saudável, mas que varia de acordo com as crenças nutricionais individuais. Em geral, aditivos intencionais (corantes, conservantes) ou não (herbicidas, pesticidas), ingredientes geneticamente modificados, gorduras, sal e açúcares são vistos como elementos prejudiciais à saúde. A forma de preparo e os utensílios utilizados também são parte do ritual obsessivo.
  • Sensação de segurança, conforto e tranquilidade vinculada à alimentação orgânica, ecológica, funcional ou com certificado de salubridade.
  • A tônica dominante é o desejo de prevenir ou eliminar sintomas físicos (reais ou exagerados) ou de ser puro e natural, mesmo que à custa da perda de prazer na alimentação.
  • Inicia-se com o desejo de melhorar a saúde, tratar uma enfermidade ou perder peso, mas, finalmente, a dieta passa a ocupar lugar central na vida, requerendo grande autocontrole para manter hábitos alimentares radicalmente diferentes daqueles típicos da sua cultura.
  • Presença de traços de personalidade fóbicos e obsessivos.
  • Atinge indivíduos de personalidade meticulosa, ordenada, exigentes consigo mesmos e com os demais (perfeccionistas), com exagerada necessidade de autocuidado e de proteção.
  • Lapsos são acompanhados de sentimento de culpa.
  • É preferível jejuar a comer o que se considera impuro ou perigoso à saúde.
  • O que comer passa a dominar o cotidiano da pessoa (desde o planejamento, aquisição, preparo e consumo dos alimentos considerados saudáveis).
  • O comportamento alimentar ortoréxico se torna o único possível, gerando uma sensação de superioridade e desprezo sobre outros hábitos alimentares e estilos de vida, considerados insalubres.
  • O cotidiano se torna extremamente limitado devido ao padrão restritivo de alimentação, gerando uma diminuição da qualidade de vida, conforme aumenta a 'qualidade' da alimentação. Assim, a ortorexia nervosa envolve uma situação paradoxal e incoerente: é preciso manter-se saudável, mesmo que o preço seja pago com a própria saúde.
  • Isolamento social decorrente do distanciamento do padrão alimentar comum à sociedade a que o indivíduo pertence.
  • Sensação de solidão e de insatisfação com a própria condição.
  • Tentativas insistentes de esclarecer outros acerca da 'alimentação saudável'.
  • Quando a aquisição da pureza dietética apresenta fundamentação religiosa, pode ocorrer a busca por compensações espirituais."

A ortorexia nervosa como uma "patalogia cultural"

Lendo um artigo me deparei ao problema da ortorexia como uma "patologia cultural" com relação ao corpo, bem como a vigorexia, anorexia, bulimia e outras patologias psicossomáticas.

Todos têm um vinculo com a compulsão, porém há muitas questões sociais e culturais envolvidas na situação. Não vou dizer somente do culto à magreza, porém quero dizer sobre os cultos extremistas, sobre a diferença entre o se aceitar, ser aceito pela sociedade e estar bem por dentro, estar saudável de verdade, estar realmente satisfeito com você mesmo.

A saúde tem que ser equalizada. Temos que ser constantes, acreditar em opiniões consistentes e duradouras.

Como tratar

Primeiro é necessário detectar a patologia por meio de análise clínica e aplicação de questionários.

O tratamento da ortorexia deverá ser realizado por equipe multiprofissional, devendo
contemplar os diversos aspectos que envolvem a ortorexia nervosa. É imprescindível o
acompanhamento psicológico, de sanitaristas, psiquiátrico, sociológico, clínico e nutricional.
Como a ortorexia ainda é pouco conhecida, torna-se importante que os profissionais de saúde permaneçam atentos a comportamentos indicativos deste transtorno. Caso isso não ocorra, as restrições na alimentação podem ser vistas apenas como adesão a uma alimentação saudável e os comportamentos condizentes com ortorexia podem ser incentivados.

Referências:
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Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.