Paola Machado

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Liberação miofascial: desvende a massagem que ajuda a aliviar dores

Paola Machado

12/06/2018 04h00

Crédito: iStock

A liberação miofascial é um assunto super em alta hoje em dia, mas é uma prática bem antiga. Os primeiros registros sobre a manipulação corporal terapêutica datam de mais de 5 mil anos, mas acredita-se que esse tipo de prática tenha começado muitos séculos antes disso, quase tão antiga quanto a humanidade.

É prioritariamente utilizada como auto massagem para liberar tensão muscular e pontos gatilho. Os equipamentos utilizados para a liberação miofascial podem ser foam roller, bola de tênis, medicine balls, lacrosse e stick. Vale lembrar que não é só pegar o equipamento e sair fazendo o movimento, é necessário devida orientação profissional já que, com estes equipamentos, geralmente, o alinhamento postural fica errado, podendo sobrecarregar os músculos e/ou articulações de apoio. A colocação inadequada pode levar a fadiga excessiva da musculatura de suporte e pressão excessiva sobre a área, reduzindo, assim, os benefícios do método.

Sistema Miofascial

O sistema miofascial é formado pelo conjunto dos tecidos fibrosos presentes no organismo, como tendões, ligamentos, fáscias e aponeuroses.

A fáscia é dividida em muscular – tecido conjuntivo fibroso e denso que envolve os músculos, ossos, nervos e vasos sanguineos do corpo – e a visceral – responsável por suspender os órgãos dentro de suas cavidades e envolvê-los com camadas de tecido conjuntivo.

A fáscia é o tecido mais penetrante em nosso organismo, liga e percorre todo o corpo. É o tecido mole componente do sistema de tecidos conjuntivos que permeia o corpo humano, incluindo ligamentos, tendões, cápsulas articulares, órgãos, túnicas de vasos, as meninges e principalmente a musculatura.

Ela pode ser definida como uma “rede” que adapta e organiza as fibras conforme a tensão mecânica é produzida, a fim de se reduzir o atrito entre as estruturas. O que combina com a origem da palavra em latim, que significa banda, bandagem, unificação, ligar junto.

As fáscias por muito tempo foram consideradas apenas como revestimento dos músculos, mas suas propriedades vão muito além disso. Ela é uma das responsáveis pelo movimento humano, pois constitui uma rede que une e influencia todos os segmentos do corpo. Para cada movimento visível do corpo há vários “invisíveis” dentro dele: músculos, ossos, ligamentos, fáscias, tendões e até os órgãos, que devem ser capazes de moverem-se uns sobre os outros. Sua principal função é reduzir a fricção permitindo que os músculos deslizem uns sobre os outros.

O que é a liberação miofascial?

É uma técnica manual ou com auxílio de equipamentos, que reconhece e libera restrições, gerando fluidez e reduzindo as aderências, melhorando assim a mobilidade geral, tratando o músculo esquelético, desenvolvendo maior liberdade e organização dos gestos, diminuindo dores, alinhando a postura, enfim, gerando saúde e qualidade de movimento.

A liberação miofascial tem sido proposta como tratamento ou auxílio na redução de barreiras restritivas nos tecidos moles. É hipotetizado que a redução destas barreiras restritivas tenha como consequência alterações musculoesqueléticas positivas como melhora da amplitude de movimento, redução da sensação de dor, melhora na capacidade de recuperação muscular, maior eficiência na ação muscular dentre outros benefícios.

Os mecanismos propostos para a ação da liberação miofascial

A técnica de liberação miofascial, como o próprio nome indica, age mecanisticamente na fáscia muscular, ou seja, um tecido conjuntivo fibroso que reveste os músculos. É comum a existência de restrições nesta fáscia muscular por diversos fatores cotidianos, como por exemplo após lesão muscular, inatividade física, inflamação entre outras situações, resultando em uma desisdratação desta fáscia e diminuição de sua capacidade elástica. Quando esta fáscia perde elasticidade e se torna desidratada, ela pode então se unir a regiões de traumas, formando uma adesão fibrosa (tecido fibroso). Por fim, esta adesão fibrosa pode gerar:

  • Dor;
  • Redução na extensibilidade dos tecidos moles;
  • Limitação na amplitude de movimento;
  • Redução na capacidade de gerar força;
  • Modificação negative na atividade neuromuscular.

Hipoteticamente tem sido proposto que a técnica liberação fascial, através da pressão (atrito entre corpo e rolo de massagem) exercida continuamente sobre o “rolo de massagem específico” exerce uma espécie de “pressão de varredura” no tecido mole (fáscia e músculo) alongando os tecidos e gerando atrito entre tecido e rolo. Este atrito causa aquecimento da fáscia, fazendo com que esta assuma uma forma diferenciada (modificando sua densidade), reduzindo assim as barreiras restritivas ou adesões fibrosas acima mencionadas entre as camadas do músculo.

Benefícios

  • Restauração da extensibilidade dos tecidos;
  • Aumento da amplitude de movimento;
  • Melhora na função muscular;
  • Auxílio na cicatrização tecidual;
  • Auxílio na recuperação da musculatura para próximo estímulo ou treino.

Alívio de dores

A liberação miofascial inclui-se na elaboração do plano terapêutico do fisioterapeuta, dentre os variados recursos e métodos que podem ser utilizados para o tratamento do tensionamento e retração da fáscia.

As retrações miofasciais podem afetar todo o nosso corpo causando grandes tensões, o que impede que o tecido muscular efetue corretamente o movimento e, portanto, interferindo na elasticidade do corpo e ao mesmo tempo na função da locomoção.

O sedentarismo e as posições viciosas que adotamos para proteção da dor podem, gradativamente, gerar restrições e encurtamentos fasciais e musculares, produzindo prejuízo no arco normal de movimento articular.

Assim, o que pretendemos com a liberação é restabelecer o comprimento ideal da fáscia, estimular a circulação de seus líquidos, promovendo um tratamento global, gerando assim menor tensionamento, ativo ou passivo, sobre todo o tecido do nosso organismo.

Dentre as técnicas, e a que utilizo mais, é realizada com pressões e força de tração, aplicada diretamente na pele (sem óleos ou cremes), onde há restrição fascial por tempo suficiente até obter a remodelagem do tecido, como uma massagem profunda. Isso provoca uma resposta do nosso sistema circulatório, aumentando o fluxo sanguíneo na área afetada, melhorando a drenagem linfática dos produtos metabólicos. Ao mesmo tempo, realinha os planos fasciais e restabelece o mecanismo sensorial dos músculos, capacitando uma amplitude de movimento funcional.

A liberação miofascial facilita o alongamento e reduz a tensão na fáscia, tenta devolver a flexibilidade e elasticidade, promovendo assim melhor funcionalidade do corpo. Vale lembrar a importância da manutenção da amplitude de movimento, do alongamento e fortalecimento adequados, só assim poderemos nos prevenir dessas dores chatas que nos atrapalham nas atividades físicas.

Para a liberação miofascial não é necessário chegar no limite da dor e desconforto pois, quando as pessoas realizam sem orientação, acabam passando do ponto.

O que temos de publicações científicas recentes sobre o tema

Amplitude de movimento

Alguns estudos encontraram aumento na amplitude de movimento após a utilização da técnica liberação miofascial. Houve aumento desta amplitude de movimento no tornozelo (Halperin et al., 2014) e joelho (MacDONALD et al., 2013; SULLIVAN et al., 2013).

Força muscular

Os resultados encontrados em relação a força muscular são controversos com a maior parte dos estudos apontando em sua maioria que liberação miofascial não altera a produção de força no músculo (MacDONALD et al., 2013; SULLIVAN et al., 2013).

Recuperação Muscular

Já para recuperação muscular, oserva-se comprovação da redução de dor muscular (ZAINNUDIN et al., 2005; JAY et al., 2014), redução dos níveis de um marcador de lesão tecidual conhecido como creatina kinase (Zainnudin et al., 2005) e melhor performance em testes de salto vertical após 48horas de uma sessão intensa na musculação. Ou seja, os resultados inicias apontam para uma melhora na recuperação muscular mesmo que novos estudos ainda necessitam ser realizados para confirmar estes achados.

Portanto, a técnica de liberação miofascial parece ter benefícios em sua utilização como pré-aquecimento (aumentando a amplitude de movimento articular) assim como posteriormente aos treinos mais intensos (na tentativa de otimizar a recuperação muscular). Os estudos utilizaram 1 a 2 séries de 60 a 120 segundos (para cada região muscular) com 30 segundos de descanso entre as séries.

Consulte um profissional para o aprendizado da técnica assim como os momentos de sua utilização que poderão variar dependendo da sua periodização.

Referências:
– MacDonald, G. Z., D. C. Button, E. J. Drinkwater, and D. G. Behm. Foam Rolling as a Recovery Tool after an Intense Bout of Physical Activity. Med. Sci. Sports Exerc., Vol. 46, No. 1, pp. 131–142, 2014.
– MacDonald, GZ, Penney, MDH, Mullaley, ME, Cuconato, AL, Drake, CDJ, Behm, DG, and Button, DC. An acute bout of selfmyofascial release increases range of motion without a subsequent decrease in muscle activation or force. J Strength Cond Res 27(3): 812–821, 2013.
– Sullivan KM, Silvey DB, Button DC, Behm DG. Roller-massager application to the hamstrings increases sit and-reach range of motion within five to ten seconds without performance impairments. Int J Sports Phys Ther. 2013.
– Jay K, Sundstrup E, Søndergaard SD, Behm D, Brandt M, Sarvoll CA, Jakobsen MD, Andersen LL. Specific and cross over effects of massage for muscle soreness: randomized controlled trial. Int J Sports Phys Ther. 2014 Feb;9(1):82-91.
– Zainuddin Z, Newton M, Sacco P, Nosaka K. Effects of massage on delayed-onset muscle soreness, swelling, and recovery of muscle function. J Athl Train. 2005 Jul-Sep;40(3):174-80.
– Halperin I, Aboodarda SJ, Button DC, Andersen LL, Behm DG. Roller massager improves range of motion of plantar flexor muscles without subsequent decreases in force parameters. Int J Sports Phys Ther. 2014 Feb;9(1):92-102.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

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