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Paola Machado

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Como o exercício pode melhorar ou prejudicar seu sistema imunológico

Paola Machado

09/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Hoje vou falar de um tema que tenho um vínculo acadêmico muito forte, que é o sistema imunológico. Meu estudo de mestrado foi sobre os "Efeitos do exercício agudo realizado em altitude simulada –4500 metros– sobre os parâmetros imunológicos e bioquímicos".

Adianto que não é um tema simples de entender, mas esse é um texto muito importante, já que permanecer saudável é a chave para o sucesso em muitos esportes. Esquivar-se de infecções é particularmente desafiador para os atletas, que regularmente levam seu corpo ao limite.

O que é a imunidade?

A imunidade é a capacidade do organismo de reconhecer um agente estranho e promover uma resposta contra ele, tentando eliminá-lo. Temos dois tipos de imunidade:

  • A imunidade inata é a primeira linha de defesa do organismo, com a qual nascemos. É uma resposta rápida, não específica e limitada aos estímulos estranhos ao corpo. Os principais componentes são as barreiras físicas e mecânicas (pele, mucosa, trato respiratório), as barreiras fisiológicas, as celulares e as inflamatórias.
  • A imunidade adquirida ou adaptativa é ativada pelo contato com agentes infecciosos e sua resposta à infecção aumenta a cada exposição ao mesmo invasor. Aqui incluímos o processo de imunização por meio de vacinas e a transferência de anticorpos da mãe para o feto.

Os órgãos primários do sistema imunológico são aqueles onde ocorre a produção de linfócitos (glóbulos brancos ou células de defesa do nosso organismo). Aqui estão o timo, a medula óssea e o fígado fetal. Já nos secundários é iniciada a resposta imune adquirida, que são o baço e os linfonodos.

Sistema imunológico e exercício

Estudos apontam que o exercício, principalmente o de baixa intensidade, é benéfico para a resposta imune, pois melhora a função de diversas células imunes como linfócitos, monócitos, neutrófilos e células natural killers. Isso diminui a incidência de infecções causadas por micro-organismos.

Existem diversas evidências demonstrando que o exercício extenuante está associado a efeitos adversos sobre a resposta imune, levando à imunossupressão –queda da atividade do sistema de defesa. Estas alterações são confirmadas por diversos estudos epidemiológicos em seres humanos após exercícios de longa duração, demonstrando aumento de infecções no trato respiratório superior, e em estudos com roedores, sugerindo que o exercício extenuante pode promover aparecimento mais frequente e severo de infecções.

Duas hipóteses são descritas para explicar a relação entre o sistema de defesa e o exercício físico. A primeira diz respeito ao papel dos hormônios de estresse e a segunda inclui a glutamina, que é um substrato indispensável para as células do sistema imunológico.

O cortisol, um hormônio imunossupressor, exerce forte influência sobre as células do sistema imunológico. Entretanto, no exercício, o cortisol parece agir tardiamente, tendo papel de destaque no período de recuperação. As catecolaminas, por sua vez, têm suas concentrações elevadas no início e permanecem elevadas ao longo de todo o exercício. Por isso, altas concentrações são responsáveis pela queda do sistema de defesa, levando a alterações imunológicas.

Com relação à hipótese da glutamina, estudos demonstram que a ausência ou diminuição da concentração plasmática desse aminoácido gera um impedimento parcial da função imunológica, levando à imunossupressão, como demonstrado em quadros infecciosos e após exercícios de intensidade moderada, porém de longa duração.

Curva em J e curva em S

O exercício físico pode ser considerado um agente estressor, pois, para conseguir realizá-lo, o organismo lança mão de modificações fisiológicas a fim de responder à quebra da homeostase e promover, assim, o restabelecimento das diversas funções fisiológicas modificadas pelo exercício.

Entre os sistemas que sofrem modificações está o imunológico, sendo que ele é influenciado de diferentes formas de acordo com a duração e intensidade da atividade física. Um treino curto e moderado (até 90 minutos, a 65% do VO2  máximo) parece ser benéfico para a imunidade, pois melhora a função de diversas células imunológicas e diminui a incidência de infecções. Já o extenuante –ou de longa duração, acima de 90 minutos — está associado à imunossupressão, aumentando a incidência de infecções no trato respiratório superior e outras doenças.

Tal fato é evidenciado pela teoria da curva em "J", postulada por Nieman e Canarella (1994), e a teoria da conhecida "janela aberta" de Pedersen e Ullum (1994), mostrando que existe um período de imunossupressão que pode durar até 72 horas após o exercício extenuante, deixando o indivíduo susceptível a desenvolver infecções.

Em 2006, o estudioso Malm postulou o quadro imunomodulador do exercício com a "curva em S", diferindo da "curva em J" pelo acréscimo do grupo atletas de elite. Ele mostrou que o exercício moderado leva a uma menor incidência de infecções, enquanto exercícios de longa duração podem levar à redução da atividade do sistema imunológico. Em atletas de elite, essa redução da atividade imunológica é menor quando comparadas a pessoas que não são atletas, mas submetidos ao treinamento extenuante. Os motivos desse comportamento não são conhecidos, mas talvez seja pelo fato de serem profissionais e o organismo estar altamente adaptado a treinos vigorosos.

O exercício extenuante aumenta a geração de radicais livres e espécies reativas de oxigênio, por meio de diversas vias. Neutrófilos e macrófagos migram para o local da contração induzida pela lesão muscular e a liberação de citocinas é ativada, produzindo espécies reativas de oxigênio.

A maioria dessas espécies é neutralizada por um sofisticado sistema de defesa antioxidante composto de uma variedade de enzimas e antioxidantes não enzimáticos, incluindo vitamina A, vitamina E, vitamina C, glutationa, biquinona e flavonoides. Portanto, se você faz exercícios extenuantes, é muito importante incluir no cardápio alimentos que fornecem esses nutrientes e ajudam a melhorar a resposta do sistema imunológico, como pimenta, limão, maçã, alho, toranja, gengibre, chá de camomila e framboesa. Também é essencial um programa de treino bem planejado, que respeite o período de descanso, para que seu organismo possa se recuperar. Por isso, busque sempre orientação de um educador físico e de um nutricionista.

Referências:
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Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.