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Paola Machado

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Por que é importante quem tem diabetes tipo 2 fazer exercícios?

Paola Machado

24/11/2018 04h00

Crédito: iStock

O diabetes mellitus é um grupo heterogêneo de distúrbios metabólicos resultante de defeitos na secreção e/ou ação do hormônio insulin.

Há diversos tipos de diabetes (I, II, insipidus, gestacional, MODY, entre outros) e a doença se tornou uma epidemia generalizada, principalmente por conta do aumento na prevalência e incidência (90% a 95% dos casos) de diabetes tipo 2 ou insulino não-dependente. Esse problema geralmente é acompanhado por resistência insulínica (levando a hiperglicemia), obesidade, dislipdemia e hipertensão arterial.

Caso a doença não seja tratada de forma adequada, a hiperglicemia crônica pode levar a consequências negativas e deletérias à saúde, como retinopatia (com potencial perda da visão), nefropatia (levando à falha renal), neuropatia periférica (risco de úlceras nos pés e amputações), podendo levar o indivíduo à morte.

Neste sentido, os profissionais da saúde necessitam estar atentos a esta população para auxílio no tratamento da doença, sendo o educador físico e o nutricionista essenciais ao tratamento da pessoa com diabetes tipo 2 (DM2).

Como identificar

Caso você nunca tenha feito algum teste para diagnóstico do DM2, é importante ficar atento a alguns fatores de risco da doença:

  • Idade acima de 45 anos;
  • Histórico familiar de diabetes;
  • Obesidade, sobrepeso ou excesso de gordura abdominal;
  • Doença cardiovascular;
  • Dislipdemia;
  • Gestante;
  • Glicemia alterada em jejum ou pós-refeição;
  • Uso de medicamentos hiperglicemiantes (corticosteróides, betabloqueadores);
  • Microalbuminúria
  • Hipertensão;

O diagnótico da DM pode ser feito por meio de testes glicêmicos (em jejum e/ou após duas horas de sobrecarga de 75 g de glicose oral), assim como exames de sangue (teste de hemoglobina glicada – HbA1C), testes de resistência insulínica (HOMA, Teste de Tolerância à Insulina ou TTI), dentre outros, sendo que cada teste possui uma sensibilidade específica e o médico lhe encaminhará para a realização de um ou mais destes testes de forma adequada.

Esse diagnóstico é essencial uma vez que a hiperglicemia desenvolve-se progressivamente e gradualmente ao longo de anos, não sendo severa nos estágios iniciais, quando o paciente não observa ou sente os sintomas clássicos da doença, como urina aumentada, sede, aumento do apetite dentre outros, mesmo já estando em risco elevado de desenvolver complicações micro e macrovasculares.

A importância do exercício

Primeiramente, devemos entender a grande limitação do DM2 para depois imaginarmos o benefício do exercício físico.

A insulina é um hormônio anabólico, essencial para estimular a captação de glicose pelos tecidos (músculos, por exemplo) no repouso e após refeições, restaurando as reservas energéticas do organismo e contribuindo para diminuição e controle da glicemia no sangue.

O hormônio está com sua sinalização celular comprometida no DM2, resultando em diminuição da capacidade do organismo em captar glicose (açúcar) e, consequentemente, ocorre a permanência dessa glicose no sangue (hiperglicemia crônica), o que leva a diversas complicações (mencionadas anteriormente).

Um dos grandes benefícios do exercício físico para o DM2 é que durante a contração muscular a glicose é captada pelo músculo por via celular independentemente da presença ou ação da insulina. Em outras palavras, conforme o exercício é realizado, a glicose sanguínea contribui para geração de energia na musculatura, permancecendo alta sua a captação por horas após a atividade física, o que antes (repouso e pós alimentação) não era possível. Isso resulta em diminuição do quadro hiperglicêmico e, quando associado a uma dieta adequada e hipoglicemiantes orais controlados, forma um tratamento efetivo para o DM2.

Em resumo, a ideia é que o paciente com diabetes tipo 2 se exercite de forma regular, para que o músculo não dependa tanto da ação hormonal (insulina) na captação da glicose, pois em princípio esta ação está prejudicada. Além disso, a perda de peso resultante do exercício planejado com dieta adequada vai melhorar a sinalização da insulina, podendo o organismo utilizar mais da via insulínica para captar glicose.

A partir daqui podemos pensar: quanto se exercitar? Que tipo de exercício? Musculação oferece este e outros benefícios?

A metanálise proposta por Umpierre et al. (2011) demonstrou de forma generalizada que o indivíduo com diabetes mellitus deve se exercitar em volume de treino mínimo de 150 minutos por semana para obter benefícios no controle glicêmico.

De acordo com Madden (2013), a intensidade do exercício tem impacto na sensibilidade insulínica. Quanto maior a intensidade, melhores os efeitos. Porém, o autor ressalta que essa intensidade deve ser tolerável, dentro de um limite que ofereça segurança, evitando lesões, por conta das complicações da doença frente a recuperação das mesmas.

Em relação ao tipo de exercício, o treino resistido (musculação), quando executado isoladamente, ainda não tem seus benefícios crônicos bem documentados na literatura científica.

No entanto, o aumento da massa muscular (adaptação clássica desta modalidade) e a redução de peso corporal (associada à dieta adequada) promovem naturalmente melhora no quadro de resistência insulínica e controle glicêmico.

Parâmetros como intensidade (moderada – 50% 1RM a alta – 75% a 80% 1RM), volume (5 a 10 exercícios para grandes grupos musculares, com 10 a 15 repetições), frequência (3 a 4 vezes na semana) estão estabelecidos para esta população.

Apesar do exercício resistido e exercício aeróbico resultarem nos mesmos benefícios em relação ao controle glicêmico (redução semelhante no teste HBA1c), quando executados de forma combinada ou concorrente, promovem benefícios adicionais, sendo considerado pelo Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM, 2010) a melhor combinação para intervenção global nos quadros de diabetes mellitus  com ênfase no tratamento do tipo 2 da doença.

No entanto, a duração e o gasto energético dos modelos de exercício concorrente, propostos na literatura, são maiores do que os modelos isolados de resistido e aeróbico, fazendo alguns autores questionarem se o benefício é da modalidade (concorrente) ou do maior gasto energético e duração prolongada.

Neste sentido, quando analisamos os benefícios comprovados do HIIT (High-Intensity Interval Training), em que mesmo com gasto energético e duração inferior ao exercício de endurance, apresenta grandes benefícios para indivíduos com diabetes tipo II, aumentando assim a probabilidade dos benefícios citados anteriormente serem oriundos do treinamento concorrente e o mesmo ser realmente o ideal para esta população.

Complementando a informação acima e também sugerindo uma forma de execução da parte "aeróbica" ou cardiovascular do treinamento concorrente, Little et al. (2011) avaliaram duas semanas de HIIT (6 sessões compostas por 10 sprints de 60 segundos na bike a 90% da Frequência Cardíaca Máxima, com 60"de recuperação ativa) para indivíduos com DM2 (média de 62 anos de idade).

Os autores observaram melhora no perfil oxidativo muscular (favorecendo a oxidação de gorduras), assim como no perfil glicêmico (aumento da quantidade do transportador de glicose para dentro da célula muscular, GLUT-4 e redução da glicemia ao longo de 24 horas).

Após avaliação médica detalhada e triagem para controle glicêmico, limitações físicas, medicamentos etc., o paciente com DM2 deve ser encaminhado para realização do teste de esforço máximo (possível identificação de indivíduos assintomáticos que possuam obstrução da artéria coronária). Uma vez liberados para prática do exercício físico, devem imediatamente procurar o personal trainer para elaboração do treinamento concorrente que se mostra atualmente a melhor opção para esta população.

Lembre-se que não existe milagre, ou seja, o exercício físico não é uma prescrição primária para a pessoa com diabetes (independentemente do tipo), devendo ser incluso e encarado como uma terapia adjunta à dieta e agentes hipoglicêmicos no tratamento da doença.

Se você tem diabetes tipo 2, procure um personal trainer e nutricionista imediatamente e desfrute dos benefícios acima mencionados.

Referências:
– Colberg SR, Sigal RJ, Fernhall B et al (2010) Exercise and type 2 diabetes: the American College of Sports Medicine and the American Diabetes Association: joint position statement. Diabetes Care 33:e147–e167.
– Sigal RJ, Kenny GP, Boule´ NG, et al. Effects of aerobic training, resistance training, or both on glycemic control in type 2 diabetes: a randomized trial. Ann Intern Med. 2007;147:357–69.
– Little JP, Gillen JB, Percival ME, Safdar A, Tarnopolsky MA, Punthakee Z, Jung ME, Gibala MJ. Low-volume high-intensity interval training reduces hyperglycemia and increases muscle mitochondrial capacity in patients with type 2 diabetes. J Appl Physiol 111: 1554 –1560, 2011.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.