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Paola Machado

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De caçadores primitivos a homens modernos: obesidade é culpa da evolução?

Paola Machado

20/01/2019 04h00

Crédito: iStock

É comum ouvirmos que o problema de obesidade que atinge o planeta, em boa parte,  é culpa do avanço tecnológico, que nos tornou mais sedentários e facilitou o acesso à comida (especialmente as pouco saudáveis). Será?

Uma equipe internacional de pesquisadores examinou o gasto de energia de uma população de "caçadores-coletores", e as descobertas parecem desmentir, pelo menos em parte, a sabedoria convencional.

Embora seja senso comum acreditar que nossos ancestrais eram mais ativos do que nós, os cálculos de gasto energético feitos pelos cientistas são surpreendentes.

Os estudiosos mostram que as pessoas em sociedades antigas, de fato, fazem mais atividade física, no entanto, sua produção total de energia é quase idêntica a dos homens atuais. Este achado contraintuitivo é explicado pela baixa taxa metabólica basal destes "caçadores" do passado: eles gastavam menos energia em repouso do que nós, mesmo quando comparamos pessoas com o mesmo tamanho e idade.

Para chegar a essa conclusão os investigadores recrutaram 30 adultos caçadores de uma sociedade tradicional de Hadza, pequena população que vive Tanzânia, na África. Vale lembrar que nenhuma sociedade, hoje, é realmente como a de nossos antepassados há milhares de anos, dizem os pesquisadores.

Em particular, Hadza mantém um estilo de vida tradicional dos caçadores, como a caça a pé, usando arcos, machados e pequenas ferramentas para cavar. Eles não usam ferramentas modernas, como veículos ou armas. Sua dieta inclui alimentos coletados e cultivados, caçando animais, cultivando tubérculos, frutas e mel.

E como mediram o consumo de energia desta comunidade? Os 30 adultos utilizaram um GPS para saber o quanto eles caminhavam por dia. Também usaram monitores de respiração tanto em repouso quanto durante a caminhada, medindo, assim, o metabolismo. Para uma maior precisão dos resultados ainda foram realizados testes de urina, que mostraram a rapidez com que os participantes da pesquisa eliminavam água quimicamente alterada, que foi dada para que eles bebessem. Os resultados foram comparados com o consumo de energia de 68 homens e mulheres que vivem nos Estados Unidos e/ou Europa, e com comunidades agrícolas na Bolívia, Nigéria e Gâmbia.

Contrariando até mesmo as expectativas dos pesquisadores, o gasto energético da comunidade de Hadza parecia muito semelhante ao gasto medido em outras populações.

Na verdade, apesar de o gasto energético total variar consideravelmente dependendo do sexo, idade e tamanho do corpo, como previsto, quando os pesquisadores analisaram os homens da mesma idade com mesmo peso não houve diferença significativa no gasto energético total diário.

Em média, o povo de Hadza tinha tamanho e peso menores do que os ocidentais. Mas a análise estatística sugere que a relação básica entre a energia gasta e massa corporal magra — não incluindo os ocidentais com "gordurinhas extras" — era essencialmente a mesma entre as sociedades e as pessoas altas e baixas.

Esses resultados são ainda mais surpreendente porque os homens de Hadza pareceram gastar muito mais energia na atividade física, quando  eles caçavam e coletavam, porém  as diferenças de atividade não se traduziu em diferença no uso da energia total.

Além do mais, mesmo entre membros da mesma sociedade, os "hadza" que caminharam um longo percurso a cada dia não tinham uma maior despesa de energia total quando comparadas aos indivíduos que não caminham muito. Um hipótese é que o metabolismo das pessoas pode compensar um pouco o nível de atividade. Ou seja, se você gasta muita energia no exercício, seu organismo dá um jeitode economizar depois.

A semelhança de gasto energético total (GET) entre os hadza caçadores-coletores e ocidentais sugere que até mesmo grandes diferenças no estilo de vida podem ter um menor efeito neste consumo.

Os pesquisadores finalizam pontuando que a ingestão de calorias da população ocidental é uma das causas da obesidade, mais do que o baixo gasto energético.

A suposição dos pesquisadores sugerem que o gasto energético total pode ser estável, uma característica restrita à fisiologia humana, sendo mais um produto da nossa herança genética do que do estilo de vida.

Dê sua opinião… Por que, mesmo assim, os caçadores-coletores são mais magros? Será que é a alimentação, livre de produtos industrializados? A vida menos estressante? A combinação atividade física e dieta? Provavelmente, um pouco de cada coisa. Afinal, a obesidade é um problema multifatorial que na maioria das vezes tem só uma causa, mas várias.

Referência:
– Herman Pontzer, David A. Raichlen, Brian M. Wood, Audax Z. P. Mabulla, Susan B. Racette, Frank W. Marlowe. Hunter-Gatherer Energetics and Human Obesity. PLoS ONE, 2012; 7 (7): e40503 DOI: 10.1371/journal.pone.0040503

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.