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Paola Machado

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Como detectar a compulsão alimentar e o que fazer para evitá-la?

Paola Machado

21/01/2019 04h00

Crédito: iStock

A compulsão alimentar é um problema que parece ser cada vez mais frequente. E é muito comum relacioná-lo à obesidade.

Porém, uma pesquisa realizada no Texas e Arizona, sobre a "Correlação Neuronal da Dependência Alimentar", publicada no Archives of General Psychiatry, mostrou que a dependência alimentar não está somente associada ao peso, sendo que muitas pessoas com peso normal apresentaram sinais de compulsão alimentar.

O termo compulsão alimentar é caracterizado por episódios nos quais o indivíduo ingere uma quantidade anormal de alimentos em um curto período de tempo. O diagnóstico do transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP) se aplica a pessoas que apresentam episódios recorrentes, incontroláveis e perturbadores de compulsão alimentar.

Durante esses episódios, o indivíduo tem uma falta de controle em relação ao tipo de alimento e à quantidade ingerida, além de uma aflição pelo seu comportamentoAlém disso, pacientes com o problema usualmente evidenciam perturbações da imagem corporal, depressão, ansiedade e impulsividade.

Embora não se encontre limitado aos indivíduos obesos, o transtorno frequentemente observado neste grupo, especialmente naqueles que procuram tratamento para perder peso. Enquanto a prevalência estimada de compulsão alimentar na população geral pode variar de 1,5% a 5%, pacientes obesos podem atingir até 63% de prevalência deste transtorno.

Os gatilhos

O episódio de compulsão alimentar nem sempre é planejado e geralmente é desencadeado por alguns sentimentos negativos, com raiva, estresse ou emoções intensas, baixa autoestima, restrições alimentares ou jejuns prolongados, a ingestão de alimentos por conforto emocional, pessoas com problemas de distúrbio de imagem corporal, problemas emocionais graves, entre outros. Entre os episódios compulsivos, os indivíduos com o transtorno restringem seu consumo calórico total e selecionam preferencialmente alimentos com poucas calorias, evitando alimentos que considerem com um alto teor de calorias ou que provavelmente induzirão a um ataque de hiperfagia.

O balanço energético

Os mecanismos fisiopatológicos da compulsão alimentar envolvem a desregulação de hormônios que participam do controle do balanço energético. A leptina (hormônio produzido pelo tecido adiposo) e a grelina (produzido principalmente no estômago) agem na regulação da ingestão alimentar, induzindo sinais de saciedade, bem como no controle do gasto energético.

A leptina age diminuindo a fome, aumentando a lipólise, diminuindo adipogênese e elevando o gasto energético. Já a grelina, inversamente, aumenta a fome, lipogênese e adipogênese e reduz o gasto energético.

Quando a leptina foi descoberta, na década de 1990, foram levantadas diversas hipóteses sobre a "cura da obesidade", uma vez que repondo a leptina supostamente faltante, haveria uma maior indução de sinais de saciedade e maior gasto energético. Entretanto, os estudos seguintes constataram que, ao contrário do que se pensava, os indivíduos obesos apresentam altas concentrações de leptina no sangue, indicando uma resistência à ação dela. Esse quadro foi denominado de hiperleptinemia. Nestes casos, observam-se maiores concentrações de fatores orexígenos, com aumento da ingestão alimentar e diminuição do gasto energético.

Além disso, estudos sugerem que a concentração de grelina apresenta-se diminuída nos obesos, entretanto, foi demonstrado que após a ingestão alimentar a concentração plasmática do hormônio não diminui, podendo ter como consequência um aumento no consumo alimentar.

Dessa forma, constatou-se que a desregulação do balanço energético, situação típica no obeso, favorece o "descontrole" alimentar característico do transtorno alimentar. Vale ressaltar que este não é o único fator envolvido na etiologia do transtorno, também participam características psicológicas e culturais.

Diagnóstico

Para o diagnóstico do transtorno deve-se investigar a ocorrência de episódios de compulsão pelo menos duas vezes por semana nos últimos seis meses. Além disso, deve estar associado com características de perda de controle e não estar acompanhando de mecanismos compensatórios para controle de peso.

Estes são os critérios fixos para o diagnóstico, que deve ser realizado por um profissional de saúde e uma equipe multi e interdisciplinar, com avaliação médica –clínica e/ou psiquiátrica –, avaliação psicológica e nutricional.

Devem ser observados outros grupos de sintomas, neste caso, deve-se identificar a presença de, pelo menos, três indicadores de perda de controle, como:

  1. Se alimentar até sentir-se repleto ou, até, desconfortável;
  2. Se alimentar mais rapidamente do que o normal;
  3. Se alimentar sozinho ou escondido devido ao constrangimento;
  4. Ingerir muitos alimentos sem estar sentindo fome;
  5. Sentir-se triste, envergonhado ou culpado após o episódio de compulsão.

Psicopatologia e obesidade. Joana Pereira de Carvalho Ferreira. Primeira edição. São Paulo: Weight Science, 2014.

Medidas imediatas e práticas para amenizar o problema

Se você notar alguns desses sinais e sintomas, é necessário procurar imediatamente um profissional para auxiliá-lo no tratamento e nas melhores escolhas. Antes de entrar nesses detalhes, há estratégias imediatas que irei pontuar para que comece desde já a amenizar esses picos compulsivos:

– Diferencie a fome fisiológica da vontade emocional Quando está com fome, você quer comer um chocolate ou um prato de arroz e feijão? Quando sentimos fome é fácil de notar. O estômago avisa, começa a roncar, a tontura chega. Comeu comida de verdade, tudo melhora. Já aquela vontade: "Estou com fome não sei o motivo, não sei do que" ou "Que vontade de um chocolate" e, ao mesmo tempo, teve uma briga com o namorado, passou um estresse no trabalho, está magoado e não sabe o porquê. Pronto! Diferenciou! Esta é a fome emocional. Antes de comer, comece a anotar seu estado emocional e o despertar do impulso.

– Ingira os alimentos de forma consciente Quando você come conscientemente, sente o prazer do alimento. Mastiga, sente o sabor e presta atenção no que faz. Aprenda a pensar no que esta comendo, não com a compulsão e emoção, mas de forma consciente. Muitos comem sem pensar e nem lembram o que comeram. Então, pense, veja e saboreie, sempre, o que está comendo.

– Pense sempre no agora e no depois A escolha realmente é difícil. Por exemplo, você está em um restaurante, tem a opção de um prato de arroz, salada e carne e outra de um macarrão com todos os queijos o que tem direito. Sua vontade agora é o prato mais calórico, não? Certo. Mas os dois te deixarão saciados. E depois? Um te deixará pensando: "Poxa, por que comi isso?"; e o outro te despertará o sentimento de "Nossa, estou me sentindo leve e consegui fazer a melhor escolha!". Sempre temos a possibilidade da escolha. Agora, se você estiver consciente da sua escolha, mesmo que for um hambúrguer, vista essa escolha e tenha certeza dela.

– O exercício sempre é uma boa escolha Quando nos exercitamos, na alegria ou na tristeza, liberamos hormônios extremamente prazerosos, como dopamina e serotonina. Isto ajuda a relaxar, a esquecer de tudo e, em vez de comer por impulso, você estará melhorando sua saúde. Segundo pesquisadores, o exercício fortalece o poder do cérebro na tomada de decisões, ajudando a dizer um não nas horas do comer em excesso.

– Durma bem Estudos mostram que dormir o suficiente diminui os níveis de cortisol, que é um hormônio estressor, sendo que não dormir bem causa irritação, ansiedade, estresse, depressão, levando ao que não queremos, ou seja, a fome emocional. Sendo assim, pessoas que dormem o quanto necessitam comem menos que as pessoas que dormem pouco.

Como tratar

Em alguns casos, são indicados medicamentos específicos para o tratamento. Porém, vale reforçar que a ação medicamentosa não pode e nem deve ser utilizada como estratégia única para tratamento, pois a saúde psicológica deve ser tratada durante todo o processo.

O paciente deve entender que os tratamentos psicológicos destinados a tratar a compulsão alimentar têm um efeito limitado no peso corporal e que a perda de peso não é um alvo terapêutico em si. Por isso, é necessário focar em intervenções de autoajuda e psicológicas em grupo e/ou individuais.

O foco do tratamento deve ser na psicoeducação, automonitoramento do comportamento alimentar e em ajudar a pessoa a analisar seus problemas e objetivos, com táticas que incluem:

  •  Fazer um plano diário de ingestão de alimentos e identificar sugestões de compulsão alimentar;
  • Incluir treinamento de exposição corporal e ajudar a pessoa a identificar e mudar as crenças negativas sobre seu corpo;
  • Ajudar a evitar recaídas e lidar com os riscos e gatilhos atuais e futuros.

É necessário o aconselhamento dos paciente a comer refeições e lanches regulares para evitar sentir fome, abordar os gatilhos emocionais para a compulsão alimentar, usando reestruturação cognitiva, experimentos comportamentais e exposição, incluindo o monitoramento semanal dos comportamentos de compulsão alimentar, a ingestão de alimentos e peso compartilham o registro de peso com a pessoa.

Além do mais, é necessário resolver problemas de imagem corporal –se presentes –, explicar à pessoa que, embora o tratamento do transtorno não tenha como objetivo a perda de peso, a interrupção da compulsão alimentar pode ter esse efeito em longo prazo. Por esse motivo, é essencial aconselhar a pessoa a não tentar perder peso (por exemplo, fazendo dieta) durante o tratamento, porque é provável que isso desencadeie compulsão alimentar.

Vale lembrar que pessoas com compulsão alimentar têm maior risco de desenvolver obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e níveis de colesterol alto. Outras doenças mentais também podem surgir como a bulimia ou a depressão.

A compulsão alimentar deve ser controlada e tratada. O tratamento leva à melhora significativa do problema. Porém, como qualquer quadro compulsivo, deve ser acompanhado, pois diversas situações podem ser gatilhos para que ele desperte novamente.

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Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.