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Paola Machado

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Anda sem pique? Será que você só está só cansado ou tem fadiga adrenal?

Paola Machado

04/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Quantas vezes na sua semana ou mesmo no seu dia você passou por situações de estresse combinadas a uma sensação de cansaço extremo?

Mesmo que o cansaço possa estar relacionado a esse estresse mental, podemos também estar sofrendo com o desequilíbrio adrenal que leva ao aumento significante dos sintomas. Embora alguns profissionais utilizem esse termo, outros ainda acreditam que o "cansaço adrenal" ou "fadiga adrenal" é um mito, porém esse texto é para esclarecer algumas pontuações e chegar a um senso comum.

As glândulas adrenais são responsáveis pela regulação de vários hormônios que afetam seu metabolismo, pressão sanguínea e resposta do sistema imunológico, mas influenciam diretamente no estresse, principalmente pela sua ação de secretar e regular adrenalina, noradrenalina e o cortisol.

A adrenalina é responsável por diversos sentimentos e ações, como a resposta de "luta ou fuga" em situações de estresse intenso.

O hormônio cortisol é conhecido pela sua função catabólica, exercendo um papel importante no equilíbrio eletrolítico e no metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídeos, além de possuir um potente efeito anti-inflamatório (em níveis normais). Causa ainda o aumento da frequência cardíaca, levando a um sentimento constante de incômodo. Durante o estresse constante, o cortisol também é secretado continuamente. Todas essas funções estão associadas ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA).

Porém, algumas vezes, ocorrem anormalidades na secreção adrenocortical, podendo resultar em alguns problemas.

O que é fadiga adrenal?

Esse termo foi postulado por James Wilson em 1998, que reforça que é uma condição do estresse do mundo atual; porém ainda é relatada em cima de hipóteses e muitos médicos a tratam como um mito. A fadiga adrenal –ou estresse adrenal ou exaustão adrenal ou hipoadrenalismo — leva a um incômodo de cansaço extremo. Você não sabe se está estressado, nervoso, irritado e fica a todo momento se queixando de sono.

Algumas pesquisas mostram que quando o seu corpo é exposto ao estresse por um longo período de tempo, as glândulas adrenais continuam bombeando mais e mais hormônios para tentar se ajustar ao problema, já que não produzem hormônios suficientes para lidar com o estresse crônico. Assim, as glândulas acabam ficando "fadigadas".

Com a constante ativação do eixo HHA (causado pelo estrese crônico) o mecanismo funciona da seguinte forma: no início do estresse, a glândula suprarrenal aumenta a produção de cortisol, mas com a permanência do estímulo, a própria glândula se dessensibiliza (feed backnegativo) e a produção de cortisol começa a diminuir, o que é chamado de fadiga adrenal. Com os níveis de cortisol baixos a sua potente função anti-inflamatória se extingue deixando os tecidos corporais a mercê de inflamações. Da mesma forma, diminuem o catabolismo, causando déficit energético e levando a uma série de sintomas, como:

  • Cansaço;
  • Ganho de peso ou incapacidade de emagrecer;
  • Sensação de estar atordoado;
  • Sensação de exaustão extrema ou sobrecarga;
  • Desejos por alimentos calóricos;
  • Estresse e sensação de nervoso constante.

Alguns autores de livros de fisiologia, como Guyton & Hall, colocam no hipoadrenalismo somente a insuficiência adrenal —Doença de Addison –, já que não reconhecem a "fadiga adrenal" como uma patologia esclarecida. Porém, essas doenças são diferentes da fadiga adrenal. Para essa doença, a glândula adrenal é danificada, levando à insuficiência adrenal e não produzindo de forma efetiva os hormônios. Já na fadiga adrenal a glândula permanece intacta, porém com dificuldade de funcionamento.

A fadiga adrenal é real?

Revisões sistemáticas e até sites de endocrinologia batem o martelo que ela não existe e não é comprovada cientificamente como uma patologia. Um estudo sobre esse tema realizado por endocrinologistas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), chamado "Adrenal fatigue does not exist: a systematic review", avaliou uma correlação entre o eixo HPA e uma suposta "fadiga adrenal" e outras condições associadas à fadiga, exaustão ou esgotamento. Porém, reforça que os estudos que hoje contam com essa nomenclatura precisam  de uma investigação mais aprofundada e detalhada, pois não encontraram provas substanciais em artigos que a comprovem como uma doença real, pois estudos anteriores que apoiavam a fadiga adrenal não mediram adequadamente os hormônios do estresse do paciente e havia poucos estudos cientificamente corretos em análises e metodologia sobre a doença.

Sites de endocrinologia apontam que a maioria dos sintomas da fadiga adrenal não combinam com sintomas de insuficiência adrenal, a doença que é cientificamente comprovada. Se você fizer uma busca simples no Google acadêmico, encontrará diversos artigos sobre os mitos da fadiga adrenal.

Se ela é um mito, por que estou escrevendo sobre ela?

Quando o autor Wilson elucidou o termo "fadiga adrenal", ele se referia a uma série de sinais e sintomas que eram queixas de muitos pacientes. Com base nisso, elaborou um questionário para diagnóstico primário com algumas questões em que classifica as respostas em uma escada de 0 — nunca — a 3 — intensa ou frequente.

  • Minha capacidade de lidar com o estresse ou com situações de pressão diminuiu?
  • Meu pensamento é confuso ou acelerado quando me deparo com situações de pressão?
  • Tenho sentimento de fraqueza muscular?
  • Muitas vezes fico com fome, confuso, instável ou um pouco paralisada em situações de estresse?
  • Eu tenho dificuldade em me levantar de manhã?
  • Preciso de café ou outro estimulante para me levantar de manhã?

Só de olhar para o teste tive certeza que eu tenho sim fadiga adrenal. Tenho certeza que a maioria de vocês também, pois os sintomas são muito comuns. Porém, existe um teste bem completo que é feito com sintomas bem específicos, como sentir dores no pescoço ou mesmo ter um melhor sono entre 7h e 9h da manhã.

O que acontece é que, como os sintomas são muito comuns, temos rapidamente uma resposta e diagnóstico para o questionamento "vivo cansado, o que será? Fadiga adrenal." Alguns médicos que acreditam nesse conceito mostram que a fadiga adrenal pode sim ter sintomas debilitantes para o corpo das pessoas, já que muitas pessoas ganham peso e tem dificuldade de perdê-lo, além de sentir um sintoma depressivo, pelo estresse e cansaço constante.

Embora a maioria das evidências não apoie a fadiga adrenal, não podemos dizer que é 100% comprovado que ela não exista. Para ter uma ideia, em 1981, Barry Marshall descobriu que a maioria das úlceras eram causadas por uma bactéria específica, mas a comunidade médica recuou em sua hipótese. Suas ideias não começaram a ganhar força até que ele bebeu a bactéria, "se deu" uma úlcera e resolveu tudo com antibióticos simples. Em 2005, ele recebeu o Prêmio Nobel por seu avanço científico. Dei esse exemplo, pois ainda temos um longo caminho para ter certeza que a fadiga adrenal de fato é um mito.

Mesmo assim tenho sintomas de fadiga adrenal; o que posso fazer?

Esse é o ponto central de todo o questionamento em torno do nome "fadiga adrenal". "Então, ok. Ela não é real. Mas eu sinto todos os sintomas. Os meus sintomas são reais!" Sentir-se cansado o tempo todo, de mau humor, irritado, ansioso, estressado e deprimido são sentimentos reais, que incomodam e não é normal estar o tempo todo assim. Com estes sintomas persistentes, é melhor informar o seu médico para tentar obter um diagnóstico mais específico.

Mas se não é fadiga adrenal, o que é isso que estou sentindo?

Embora os estudos mostrem que o estresse não é capaz de desgastar a glândula adrenal, isso não significa que o estresse não tenha consequências em seu corpo. Um estudo da Universidade de Miami descobriu que o estresse crônico eleva diretamente a pressão arterial e reduz a resposta imunológica. Quando os hormônios do estresse permanecem altos, os pacientes se recuperam mais lentamente de doenças e também podem adoecer com mais frequência. Os sintomas geralmente associados à doença –fadiga, mal-estar, falta de apetite — não são causados ​​pela fadiga adrenal, e sim pela tentativa do corpo de melhorar. Basicamente, o estresse de combater um resfriado é o que causa todos os sentimentos inoportunos, não o frio propriamente dito.

O estresse pode causar fadiga, mal-estar, apetite descontrolado ou, em outros, falta de apetite, pressão alta, diminuição da resposta imunológica e ganho de peso –quase todos os sintomas da fadiga adrenal.

Agora se você realmente não acha que o estresse é o problema, pode ser depressão –que parece muito assustadora e ruim, mas é comum e tratável.

A depressão não é apenas sentir-se triste, mas também pode se manifestar de formas físicas e emocionais complexas.  Agora, ouvir "é apenas estresse ou talvez depressão" não é nada  confortante. Mas há muita coisa que você pode fazer para combater os sintomas do estresse geral, mesmo sem consultar um médico. No entanto, se você acha que pode ser depressão, definitivamente vale a pena ver um profissional de saúde mental para um diagnóstico completo e opções de tratamento.

Você pode ter disfunção do eixo hipotálamo-hipófise. De qualquer maneira, você deve fazer um check-up se você está sofrendo de sintomas associados à "fadiga adrenal" — seu médico com certeza solicitará exames específicos.

Como se sentir melhor

Seja verdade, seja mito a "fadiga adrenal", minha postura profissional é de sempre dar instruções para melhorar sinais e sintomas que os pacientes costumam relatar, que também são úteis para quadros de estresse crônico e até transtornos leves de humor.

Dormir A coisa mais importante a fazer pelos seus sintomas é reduzir o estresse, e uma boa maneira de fazer isso é dormir mais. Ao simplesmente dormir o suficiente, você pode aliviar imediatamente alguns dos sintomas associados à "fadiga adrenal". Dormir de 8 a 10 horas é o suficiente, porém tem pessoas que ficam muito bem com 6 horas de sono. Esse ponto, na verdade, está relacionado à qualidade do seu sono. O seu corpo tem que entender que está na hora de dormir, por isso, apague as luzes da casa, reduza a exposição aos monitores (computador, celular e televisão) pelo menos 2 horas antes de se deitar, não coma nada pesado logo antes de dormir e relaxe.

Faça um plano alimentar adequado Como a inflamação é uma das principais causas de estresse interno, é melhor cortar alimentos que induzem a inflamação e adicionar gorduras saudáveis ​​e ingredientes anti-inflamatórios naturais. Alimentos que você deve incluir na alimentação são fontes de ômega 3, pois reduzem o processo inflamatório. O ômega 3 é vital para combater os sintomas da fadiga adrenal. Quando você aumenta a ingestão de ômega 3, reduz a produção de hormônios pró-inflamatórios. Isso ajuda a neutralizar os efeitos do estresse crônico no corpo. À medida que a inflamação recua, as pessoas geralmente se sentem mais energéticas e experimentam a perda de peso. Você deve ver alguma mudança nos sintomas após 4 a 6 semanas de ingestão. Mas, se depois de alguns meses essa mudança na alimentação não melhorar sua irritação, procure um médico.

Diminua a exposição a situações estressantes Sei que esse ponto é bem difícil, mas temos que trabalhar o autocontrole. Busque formas de relaxar, como meditações, massagens, passeios no parque, ouvir música, enfim, destine um tempo do seu dia para fazer coisas que goste. É importante, antes de qualquer coisas, listar tudo o que desperta estresse em você e buscar soluções. Reserve 30 minutos do seu dia, que seja, para ficar sozinho sem pensar em nada. Tenha isso como meta. Se for muito tempo para você, separe pelo menos duas horas da sua semana para isso.

Eu ainda acho que pode ser um problema adrenal

Se você está preocupado que você pode ter doença de Addison ou insuficiência adrenal, é melhor procurar um médico que solicite exames para ACTH. O teste salivar também é uma ótima opção para aferir cortisol e DHEAS — hormônios do estresse.

A fadiga adrenal pode ou não ser real, mas isso não significa que seus sintomas sejam "inventados" ou "tudo é um problema da sua cabeça".

Provavelmente, o estresse geral é a causa, e você tem que dar a devida atenção a isso. Se os seus sintomas forem graves, consulte um médico e um profissional de saúde mental.

*Colaboração do neurocirurgião e termografista Dr. Leonardo Lo Duca

Referências:
– About James L. Wilson, DC, ND, PhD. Adrenal fatigue.
– Greatist.com
– Cadegiani, F.A.; et al. Adrenal fatigue does not exist: a systematic review. BMC Endocr Disord. 2016; 16(1): 48.
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Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.