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Café descafeinado tem benefícios? É uma boa opção para você?

Paola Machado

2010-03-20T19:04:00

10/03/2019 04h00

Crédito: iStock

Você adora o cafezinho, mas acha que está passando do ponto?! Aí você fala: "vou cortar a cafeína". Se você quer mesmo fazer isso, uma forma de ter sucesso é começar a tirar aos poucos o café "normal" escolher um café descafeinado.

O que é café descafeinado?

O café descafeinado possui aroma, textura e sabor similares ao comum, só diferenciando na quantidade de cafeína. Embora o descafeinado sugira que é destituído de cafeína ele não é 100% zero cafeína. Para você ter uma ideia, o café normal contém de 60 a 150 miligramas de cafeína por xícara, enquanto o descafeinado contém até 5 miligramas da substância, o que é significativamente menor, contudo não insignificante, portanto ele não é efetivo para pessoas que querem evitar completamente o consumo de cafeína.

Nos cafés importados, como a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA não tem regulamentos rigorosos sobre o descafeinado, pode ser difícil saber exatamente o que você está consumindo em cada xícara. Sem mencionar que a qualidade do grão e os métodos de processamento podem afetar os níveis de cafeína.

O que sabemos é que o processo de descafeinação normalmente remove cerca de 97% da cafeína e que, em média, o café descafeinado tem 3 a 5 miligramas de cafeína por xícara.

Como é produzido

Acredita-se que o café descafeinado foi descoberto em 1903, por Ludwig Roselius, chefe da empresa de café Kaffee HAG. E foi por acidente, quando um carregamento de grãos de café caiu na água do mar durante o trânsito, o que naturalmente extraiu grande parte da cafeína. Pouco depois, o comerciante recriou esses grãos usando um solvente químico chamado benzeno, um ingrediente que é um componente importante da gasolina e também encontrado em vulcões.

Porém, descobriram que o benzeno poderia trazer diversos malefícios à saúde — principalmente câncer — e a descafeinação dos grãos de café teve que ficar mais segura, entretanto alguns produtos químicos ainda são utilizados para o processo de descafeinação.

O processo começa com grãos não torrados, que são inicialmente embebidos em água para dissolver a cafeína. Então, seguem para um dos três métodos principais:

  • Processo à base de solvente O primeiro é com substâncias químicas, como o cloreto de metileno — que é usado em removedores de tinta — e acetato de etila — usado em removedores de cola e de esmalte. Eles são usados para remover a cafeína da água, adicionando-os à mistura de café e água — que é o processo "direto" — ou removendo a água dos grãos e, em seguida, adicionando-os à mistura de água — o processo "indireto". O passo final é a evaporação da água para que o sabor permaneça nos grãos.  Nenhum produto químico é encontrado no café.
  • Processo swiss water Este é o único método orgânico de descafeinar o café. Ele se baseia na osmose para extrair cafeína e garante um produto 99,9% descafeinado. Usa-se um filtro de carvão para remover a cafeína da água, tornando-a livre de químicos.  
  • Processo de dióxido de carbono O método mais recente usa dióxido de carbono, um composto encontrado naturalmente no café como gás, para remover a cafeína e deixar intactos outros compostos de sabor. Embora eficiente, é caro.

Embora os últimos métodos pareçam preferíveis, a quantidade de produtos químicos que permanecem no final do primeiro método de descafeinação é mínimo e foi considerada seguro pelo FDA. Independentemente da sua preferência, é muito difícil os rótulos divulgarem o método que foi feito, pois não há obrigatoriedade nessa divulgação, a menos que você opte por orgânico, que é livre de solventes.

O descafeinado é uma boa opção para você?

A ingestão de uma ou duas xícaras de café descafeinado puro por dia não irá causar quaisquer efeitos adversos para a saúde. No entanto, pessoas com colesterol alto, ou com risco para doenças cardiovasculares, devem procurar um médico para saber os efeitos colaterais, se ele é indicado e em qual quantidade.

Quer seja descafeinado ou normal, o café é rico em antioxidantes e embora o descafeinado possa ter quantidades um pouco menores desses antioxidantes, o café descafeinado não é desprovido dos benefícios; conforme recomendado pelo Medical News Today, sua ingestão não deve nunca ser usada como um substituto para os antioxidantes presentes nas frutas e legumes.

Mas isso não é tudo. O café descafeinado tem muitos atributos positivos, alguns dos quais são devidos aos seus níveis mais baixos de cafeína:

  • Um estudo mostrou que o consumo de café descafeinado está associado a uma diminuição do risco de desenvolver câncer retal.
  • Um estudo em ratos mostrou que roedores que foram suplementados com café tiveram melhor desempenho em tarefas relacionadas à cognição do que aqueles sem, sugerindo que o café pode reduzir o declínio mental relacionado à idade –não importa o conteúdo de cafeína.
  • O consumo de café descafeinado e cafeinado tem demonstrado proteger os neurônios no cérebro e pode ajudar a prevenir doenças como Alzheimer e Parkinson.
  • O café descafeinado pode diminuir a mortalidade graças ao seu efeito positivo sobre fatores de risco como inflamação e depressão.

O café normal certamente tem uma lista enorme de benefícios para a saúde, como já foi pontuado aqui no VivaBem, mas isso não significa necessariamente que seja mais saudável que o descafeinado. Por um lado, há o argumento de que, como o café com cafeína é mais estudado, sabemos muito mais sobre ele, daí todos esses benefícios. Mas há também o outro lado do café, pois muitas pessoas não se dão bem com a cafeína.

Muitos podem sofrer de sintomas como refluxo gastroesofágico, azia e desconforto geral do estômago após uma xícara de café. E com certeza isto está bem longe de ser a maneira mais agradável de começar o dia. Como o processo de descafeinação pode tornar o café mais leve, o descafeinado pode reduzir esses sintomas, tornando-o uma opção mais acertiva para alguns.

A cafeína também é responsável por outros efeitos colaterais, como ansiedade, falta de sono, pressão alta e fadiga. Pessoas que consumem com muita frequência podem levar a desejos e sintomas de abstinência.

A cafeína também pode afetar negativamente quando ocorre a interação com certos medicamentos. No entanto, devido aos seus níveis mínimos de cafeína, o descafeinado é uma escolha muito mais segura –repito, consulte o seu médico se você tiver uma condição médica que exija a minimização do consumo de cafeína.

Por esse motivo, o café descafeinado é recomendado para pessoas com sensibilidade à cafeína ou ainda com hipertensão, insônia, distúrbios de ansiedade, taquicardia, esofagites, gastrites, úlceras, azia, náuseas, enxaquecas, labirintites e dores de cabeça.

Quando se trata de café, depende de você e da resposta do seu corpo à cafeína. Se você não sofre de efeitos colaterais, consuma com moderação. Se você preferir algo mais suave — tanto no paladar quanto na experiência –, opte por descafeinado. E se a ingestão de produtos químicos não soa tão atraente para você, procure o selo orgânico certificado ou pergunte ao seu café local se eles estocam orgânicos ou sabem como seus grãos são processados. Limite seu consumo de cafeína a 400 miligramas por dia –3 a 4 xícaras, no máximo. 

Referências:
Benzeno.
The Science Behind Decaf.
Methylene chloride. FDA.
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Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.