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Paola Machado

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Intolerância é diferente de alergia alimentar; veja sintomas e causas

Paola Machado

2019-03-20T19:04:00

19/03/2019 04h00

Crédito: iStock

Apesar de muitas pessoas confundirem, os termos intolerância e alergia alimentar se referem a condições clínicas diferentes, que envolvem mecanismos fisiopatológicos e condutas nutricionais distintas.

O que é intolerância alimentar?

É uma resposta adversa ao alimento, causada por características fisiológicas de cada pessoa, como desordens metabólicas e gastrointestinais. Elas geram deficiência de enzimas digestivas no trato gastrointestinal, as quais são necessárias para a digestão de um determinado nutriente.

Os sintomas mais comuns incluem gases, desconforto, distensão abdominal e diarreia. Nestes casos, não ocorre reação do sistema imune contra o nutriente ingerido e não digerido adequadamente.

A intolerância a lactose é o exemplo mais comum de intolerância alimentar e é caracterizada pela deficiência de enzima lactase, responsável por metabolizar a lactose.

A lactose é o açúcar presente no leite e derivados. Quando ingerimos esta substância  ela é quebrada em dois açúcares menores — galactose e glicose — que são absorvidos no intestino e alcançam a corrente sanguínea para então serem utilizados como fonte de energia pelas células do corpo. A lactase é a enzima que faz esta quebra. Entretanto, em situações de intolerância, a lactose não é digerida e alcança o intestino grosso –cólon –, sendo fermentado por bactérias locais. Esta reação gera os sinais e sintomas característicos da intolerância à lactose e geralmente aparecem de 30 minutos a duas horas após a ingestão. As mais comuns são inchaço abdominal, cólicas, gases, flatulência, diarreia, assaduras, náuseas, vômitos, cãimbras e algumas vezes constipação intestinal.

A hipolactasia (deficiência de lactase) pode ocorrer por diversas causas, sendo geralmente de origem primária — alactasia congênita ou hipolactasia do adulto — ou secundária — diarreia aguda/persistente, doença celíaca, enterites alérgicas, giardíase, doença de chron etc.

  • Hipolactasia do "adulto" Ocorre na população adulta, geralmente ocasionada por influencia genética. No Brasil, aproximadamente 40% das pessoas apresentam hipolactasia do "tipo adulto".
  • Alactasia congênita É uma condição rara, em que se manifesta logo após o nascimento. A criança não expressa a enzima lactase, por isso não pode ser amamentado exclusivamente e deve receber fórmula para lactentes sem lactose.
  • Intolerância secundária à lactose É uma condição que se manifesta, na maioria das vezes temporariamente, devido a alguma doença que acomete o trato gastrointestinal, como gastroenterite viral, alergia ao leite de vaca, doença celíaca e doença de Crohn. Nestas situações, ocorre um comprometimento na produção da enzima lactase, mas que pode ser revertido após a reversão do quadro causal. O tratamento nutricional para a intolerância à lactose consiste na isenção de lactose na dieta. Portanto, leites e derivados devem ser excluídos da alimentação. Há também a possibilidade de consumo oral da enzima lactase, para auxiliar na digestão deste açúcar.

O que é alergia alimentar?

São reações imunológicas anormais causadas pela ingestão de um alimento ou componente alimentar, geralmente proteínas. Algumas proteínas contidas em alguns alimentos apresentam um potencial alergênico maior, como as presentes no leite de vaca, na soja, em frutos do mar, nas oleaginosas, no ovo e na farinha de trigo.

Estudos revelam que vários alérgenos podem produzir reações cruzadas, as quais ocorrem quando duas proteínas alimentares compartilham semelhança em parte de sua estrutura.

Um exemplo: o leite de vaca é um dos principais alérgenos alimentares e pacientes alérgicos a suas proteínas apresentam elevadas taxas de reatividade a leites de outros mamíferos, com destaque para cabra, ovelha e búfala. Na tabela abaixo, a Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (2018) elencam os principais alimentos alergênicos e os possíveis alimentos com reação cruzada:

Cerca de 6% a 8% das crianças e 2% dos adultos apresentam alguma forma de alergia alimentar. No Brasil, a prevalência de alergia alimentar em nível nacional ainda não foi mensurada. Entretanto, estudos específicos mostram que a prevalência de alergia às proteínas do leite de vaca é de 5,4% em crianças.

O espectro de reações relacionadas às alergias alimentares é amplo e envolve diversos tipos de manifestações, como cutâneas (urticária, angioedema, dermatite atópica), gastrintestinais (diarreia, vômitos), respiratórias (broncoespasmo agudo) e/ou sistêmicas (anafilaxia).

O termo alergia alimentar tardia refere-se a reações imunológicas mediadas por IGE, um tipo de anticorpo produzido tardiamente após a ingestão do alimento considerado alergênico.

Muitas vezes neste casos, os sintomas não são sentidos imediatamente após o consumo, mas podem se manifestar de 6 a 24 horas ou mais após a ingestão alimentar. Essa reação ocorre lentamente, e pode atingir seu pico em até 48 horas.

O tratamento da alergia alimentar é realizado por dietas de exclusão alimentar, ou seja, o indivíduo deve eliminar da dieta o alimento responsável por sua alergia.

*Colaboração da nutricionista e pesquisadora Dra. Deborah Masquio (UNIFESP)

Referências:
– Pereira ACS. Alergia alimentar: sistema imunológico e principais alimentos envolvidos. Semina: Ciências Biológicas e da Saúde, Londrina, v. 29, n. 2, p. 189-200, jul./dez. 2008.
– Taylor e Hefle. Alergias alimentares e intolerância. In Shilss. Nutrição Moderna na saúde e na doença. 2009.
– Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2018 – Parte 1 – Etiopatogenia, clínica e diagnóstico. Documento conjunto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Arq Asma Alerg Imunol. Vol. 2. N° 1, 2018.
– Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento de Nutrologia. Manual de Alimentação: orientações para alimentação do lactente ao adolescente, na escola, na gestante, na prevenção de doenças e segurança alimentar / Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia. – 4ª. ed. – São Paulo: SBP, 2018.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.