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Paola Machado

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Táticas para o pessimismo e a amargura das pessoas não afetarem você

Paola Machado

2020-03-20T19:04:00

20/03/2019 04h00

Crédito: iStock

Já falei aqui algumas vezes, como toda mãe coruja, que tenho dois filhos: Nicolas, de 10 anos, e a Lorena, de 7. Logo que lançou o filme Wi-fi Ralph, Quebrando a Internet, fomos assistir. E eu, que trabalho com internet, levei um tapa na cara quando o Ralph entra na sala de comentários e a "Senhora Algoritmo" fala: "Regra número 1 da internet, nunca leia os comentários".

Na hora lembrei de muitos comentários que vejo aqui nos textos do UOL e nas redes sociais e concordei.  É só você ler alguns comentários e vai perceber também o quanto as pessoas estão negativas, pessimistas, amargas e só se preocupam em apontar erros.

Como viver sem estresse, em uma constância emocional, com bons pensamentos, em mundo que visa o caos? Às vezes a gente culpa a correria, a pressão no trabalho e o trânsito pelos nossos problemas, mas e o negativismo das pessoas?

Na internet ninguém tem cara. A pessoa usa um nome falso, xinga e desmerece todo mundo, em vez de ajudar e sinalizar os erros de forma delicada. Na internet tem pessoas que vivem em uma vibe para baixo e acabam passando isso para os outros ao redor; e também tem nós, que se dermos brecha e liberarmos um espacinho para pensamentos ruins, caímos em um buraco sem fundo.

As emoções comprovadamente são contagiosas. Você já se perguntou por que o humor de outra pessoa pode afetá-lo tanto? Um estudo de 2017 descobriu que adolescentes que se cercavam de amigos com energia negativa e que viviam para baixo também relatavam que seu humor piorava com o tempo –um processo conhecido como "contágio social".

Cientificamente, isso tem relação com a ação dos chamados "neurônios-espelho". Os neurônios espelho foram descritos inicialmente em macaco Rhesus, na década de 1990. Estes neurônios disparavam quando o macaco realizava ações específicas –como pegar uvas passas — ou quando ele observava a mesma ação realizada por outro macaco ou por um pesquisador. Assim, estes neurônios possibilitam a compreensão da ação e/ou da intenção de outro animal pela ativação subliminar desta ação nos circuitos fronto-parietais.

Estes neurônios estariam envolvidos com a origem da linguagem humana e a sua disfunção poderia causar autismo. Esses neurônios viso-motores têm ação da imitação e, com eles, desenvolvemos a sensibilidade de entender como o outro está se sentindo. Por esse motivo, quando seu amigo está mal ou alguém te envia um comentário negativo –que com certeza é reflexo da vida daquela pessoa –, você pode experimentar do mesmo sentimento. Assim é essencial trabalhar sua autoconfiança e "se blindar" desses sentimentos que não são seus e sim estão espelhados.

Somos espelhos um dos outros e a repetição torna-se verdade absoluta. Eu sempre reforço que, se tem alguém triste, chateado, mal, nervoso, é necessário, antes de ajudar, estar preparado emocionalmente para tal. E fique tranquilo que isso não é egoísmo, pois precisamos nos ajudar antes de ajudar qualquer pessoa. E, por fim, aprender a ouvir, orientar — quando necessário –, e não absorver.

Então, quando alguém vem desabafar com você sobre problemas, ou tentar te diminuir ou depreciar o que você faz, você deve aprender a neutralizar. Não vou conseguir solucionar o problema do mundo, mas pensando em saúde e sendo o estresse um fator crucial para o bem-estar, ajudarei com dicas para você melhorar.

Tente entender quando você absorveu a emoção do outro

Isso é a parte mais importante do processo. Eu digo sempre que perceber, desde que está se alimentando mal até que está no caminho errado, é um enorme passo. Quando você compreende que o seu desânimo vem do outro e não partiu de um problema seu, já é uma grande conquista. Por isso, se estiver se sentindo triste, mal, pense o motivo pelo qual iniciou esse processo, para entender se esse problema te pertence ou não.

Esteja preparado, sempre, para não absorver energias negativas

Se você sabe que vai encontrar pessoas que sempre estão te colocando para baixo ou vivem para baixo, ou mesmo amigos que não estão muito bem emocionalmente, esteja preparado emocionalmente para interagir com essas pessoas. Antes de sair ou tomar qualquer atitude, tenha um tempo com você e tente materializar aquela situação. Olhe para o espelho e afirme que ajudará, mas não absorverá essas emoções. Parece bobo, mas é uma forma de sinalizar a você o que está por vir. Por fim, esteja confiante com você mesmo.

Balançar a cabeça pode reforçar o comportamento do outro

Sabe aquelas situações que a pessoa fica desabafando sobre problemas o tempo todo e você fica balançando a cabeça, em sinal de aprovação, só para parecer que está ouvindo?Isso faz com que reforce o comportamento de problematizar daquela pessoa. Uma boa alternativa para melhorar essa situação é oferecer uma solução e mostrar outros pontos positivos da vida daquela pessoa. Se ela está pedindo ajuda a você trazendo problemas atrás de problemas, redirecione a forma de pensar, mostrando o lado positivo das suas conquistas –estou falando aqui de pessoas que queixam-se sempre de problemas pequenos, se for um grande problema, nada como um ombro amigo para deixá-lo desabafar.

Aprenda a falar "não"

Falar "não" é muito complicado. Às vezes, alguns olham isso como uma grosseria, porque todo mundo quer resolver seu problema e não pensa que os outros também têm problemas. Nós só temos muito para dar às pessoas quando estamos cuidando de nós mesmos, com nosso emocional estruturado e as necessidades resolvidas. Sei que é difícil não ajudar, mas muitas vezes não estamos bem para ajudar. Quando estamos com problemas, nos envolvemos nos problemas dos amigos, familiares, colegas e não estamos emocionalmente bem para filtrar, acabamos aumentando o problema ainda mais. Não é egoísmo falar "hoje eu não posso", "hoje não dá", "não". E, sim, é uma forma de não ficar mal. Cuidar de nós mesmos é nossa maior responsabilidade.

Não leia comentários, dê uma pausa na tecnologia

São tantas coisas acontecendo. É política, religião, gênero e você nesse entra nas discussões ou expõem sua opinião. Aí, começa uma briga sem fim. Pra quê? Para se estressar. Outro ponto: já percebeu como seu humor altera rolando um feed? Você dá uma gargalhada, se apaixona por um vídeo, fica com raiva de uma opinião, chora por um desastre. São milhares de emoções em loop em cerca de minutos. Tente ficar mais quietinho, desligue as mídias sociais por um tempo, tente não entrar em polêmicas e, se não tiver a fim mesmo, desative os comentários. Como disse, não leia os comentários. Se você não fizer uma pausa, seu cérebro e seu corpo estão constantemente passando por estacas de alto estresse e o estresse crônico não faz muito bem para ninguém.

Agradeça todos os dias e evite se irritar com coisas pequenas

Um estudo realizado na Universidade de Miami encontrou uma ligação entre gratidão e felicidade. Dois grupos escreviam algo todos os dias sobre suas vidas. Um grupo se concentrava em coisas pelas quais eles eram gratos; o outro, nas suas irritações. Os participantes que escreveram sobre gratidão se sentiram mais felizes e melhor depois de dez semanas do que o grupo que se concentrou em reclamar. E como a negatividade, a gratidão se espalha, por isso outro estudo descobriu que os casais que expressavam gratidão um pelo outro tinham relacionamentos mais amorosos e com relações de confiança.

Seja gentil com você

Somos muito críticos com nós mesmos. Já prestou atenção quantas vezes reclamou do seu corpo, da sua barriga, do seu peso, do seu nariz, da sua orelha? Quando a crítica se une ao nosso mau humor, daí somos capazes de nos esfolarmos no chão. Se sua cabeça lhe trouxer uma crítica, devolva com um elogio. O foco positivo ajuda a apoiar nossa mentalidade positiva.

Se uma pessoa está te fazendo muito mal, reveja

Ninguém gosta de romper uma amizade, mas tem pessoas que até tentam ser amigas, pois têm um carinho uma para a outra e, mesmo assim, às vezes não dá certo. Tem também outras pessoas que saímos e quando voltamos pra casa sentimos que estamos com uma energia péssima. Se isso for frequente, com a mesma pessoa, avalie se é bom para você. Se distanciar de uma pessoa é um caso mais extremo, mas muitas vezes necessário.

Referências:
– Eyre, R.W.; et al. Spreading of components of mood in adolescent social networks. rsos.royalsocietypublishing.org R. Soc. open sci. 4: 170336. 2017.
– Mohd. Razali Salleh. Life Event, Stress and Illness. Malays J Med Sci. 2008 Oct; 15(4): 9–18.
– Emmons, R.A.; et al. Counting blessings versus burdens: an experimental investigation of gratitude and subjective well-being in daily life.J Pers Soc Psychol. 2003 Feb;84(2):377-89.
– Lambert, N.M.; et al. Expressing gratitude to a partner leads to more relationship maintenance behavior. Emotion. 2011 Feb;11(1):52-60. doi: 10.1037/a0021557.
– Allan Pablo Lameira; et al. NEURÔNIOS ESPELHO. Psicologia USP, 2006, 17(4), 123-133.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.