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Faz mal estalar os dedos e outras articulações? A que sons ficar atento?

Paola Machado

14/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Estalar o dedo ou o pescoço é um hábito comum. Cerca de 25% a 45% da população estala alguma articulação de forma consciente, sendo isso para algumas pessoas mais do que um hábito, é praticamente um vício.

Estalar não costuma fazer mal, desde que não cause dor. Sua avó acreditava que estalar dedos podia engrossá-los, saiba que é um mito que já caiu por terra.

Mas alguns pesquisadores associam o hábito a danos, incluindo lesão nos músculos, tendões e até em cápsula articular. Outros associam à diminuição da força e alteração em amplitude de movimento. Além disso, a ciência vem relacionando a efeitos deletérios como o risco de frouxidão ligamentar e até de doença degenerativa. No entanto, ainda não há um consenso.

Ciência explica de onde vem o estalo

Há anos cientistas avaliam os efeitos dessa prática para compreender de onde vem o som e como ele se forma.

  • Como ocorre? Há concordância na literatura quanto à formação de uma bolha como parte do mecanismo do estalo. Mas o processo pelo qual a bolha é formada e a origem exata do som de quebra não é claro.
  • O que se sabe hoje? Cientistas explicam que temos nas articulações um líquido que preenche o espaço da articulação, chamado líquido sinovial que age como um lubrificante e contém gases como oxigênio, nitrogênio e dióxido de carbono. Quando movemos a articulação de uma forma extrema ou rápida existe um afastamento dos ossos, criando um espaço, uma bolha de ar. No momento em que essa bolha é movida se ouve o estalo.
  • Pode ocorrer na coluna? Pode sim. Na coluna há uma série de pequenas articulações. O movimento do fluido, contido nestas articulações, causa os estalos que você escuta quando torce o tronco ou quando se estica. Após ficarmos um dia todo sentados na mesma posição em frente ao computador, a coluna tende a estalar naturalmente.

Sensação de Alívio

Quem nunca provocou propositalmente um estalo para aliviar algum desconforto momentâneo que atire a primeira pedra. Estudos comprovam que as pessoas associam o barulho do estalo à sensação de alívio. Nas articulações possuem conjunto de terminações nervosas chamados Orgãos Tendinosos de Golgi que são estimulados quando estalamos e consequentemente, os músculos em torno da articulação relaxam. Além disso, alguns estudos apontam para a liberação de neurotransmissores relacionados ao prazer e bem-estar com o estalo.

A percepção de que vértebra está "realinhada" após estalar está mais relacionada com esses benefícios. Mas não há milagres, a ciência comprova que para manutenção a longo prazo de uma coluna saudável há a necessidade de realizar um tratamento de forma mais ativa, através de exercícios de alongamento e principalmente, fortalecimento. Por isso, estalar sozinho não será a solução de todos os seus problemas.

Fique atento a outros sons

Você sabia que as articulações podem fazer sons diferentes: estalo, crepitações, etc e muitas vezes, podem passar a sensação de que está "fora do lugar".

  • Movimento das articulações, tendões e ligamentos Dependendo da angulação do movimento você pode sentir um estalo quando o tendão retoma sua posição original ou seus ligamentos tensionarem.
  • Ranger e crepitar Articulações podem crepitar ​​pela perda de cartilagem lisa e devido à rugosidade da superfície articular. Esse processo pode estar associado a uma condropatia e em alguns casos, o não tratamento pode evoluir para um desgaste articular severo.
  • Ressalto Ocorre nas camadas que revestem o músculo, conhecida como fáscia. Quando a fáscia é estimulada de forma abrupta, principalmente em pessoas sedentárias. Quem nunca sentiu um estalo na escápula quando mexe o ombro?

Embora um estalo não gere dor na fase inicial, procure um profissional da saúde para avaliar o seu alinhamento postural e a qualidade articular, pois estalar de forma rotineira pode causar ou indicar algum dano articular. Sabemos que a prevenção é o melhor caminho para ter qualidade de vida.

*Colaboração da fisioterapeuta Doutora em Ciências da Saúde pela Unifesp, Dra. Renata Luri e da fisioterapeuta pela Unifesp, Dra. Angela May

Referências:
– Let's get a hand on this: Review of the clinical anatomy of "knuckle cracking".Rizvi A1, Loukas M1, Oskouian RJ2, Tubbs RS1,3. Clin Anat. 2018 Sep;31(6):942-945. doi: 10.1002/ca.23243. Epub 2018 Oct 18.
– "Knuckle Cracking": Can Blinded Observers Detect Changes with Physical Examination and Sonography? Boutin RD1, Netto AP2, Nakamura D2, Bateni C2, Szabo RM2, Cronan M2, Foster B2, Barfield WR3, Seibert JA2, Chaudhari AJ2.Clin Orthop Relat Res. 2017 Apr;475(4):1265-1271. doi: 10.1007/s11999-016-5215-3. Epub 2017 Jan 3.
– A proposed in vitro model for investigating the mechanisms of 'joint cracking': a short report of preliminary techniques and observations. Jerome CJ Fryer, Jeffrey A Quon, Richard D Vann. J Can Chiropr Assoc. 2017 Mar; 61(1): 32–39.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

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