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BLW: saiba o que é qual o impacto na saúde de deixar o bebê comer sozinho

Paola Machado

09/10/2019 04h00

Crédito: iStock

Baby Led Weaning (BLW) significa o desmame guiado pelo bebê e consiste em um método de introdução alimentar. Foi sugerido inicialmente pela britânica Gill Rapley. O BLW defende a oferta de alimentos complementares em pedaços, tiras ou bastões, a partir dos 6 meses de idade, fase recomendada para se iniciar a alimentação complementar. Neste método, a alimentação da criança não é realizada com a colher e nenhum método de adaptação de consistência para preparar o alimento do lactente, como amassar, triturar ou desfiar.

Do ponto de vista comportamental, acredita-se que desde após o nascimento, os bebês saudáveis já possuam a capacidade de autorregular sua alimentação, de forma a determinar o início e o fim da mamada, bem como a velocidade de sucção e a frequência. Acredita-se que na fase de alimentação complementar, a criança já possua essa capacidade para regular o que e o quanto comer.

Quando iniciar a introdução alimentar?

A Sociedade Brasileira de Pediatria e o Ministério da Saúde recomendam que a introdução alimentar seja iniciada aos seis meses de vida. Entretanto, analisar sinais de maturidade do bebê para a introdução de alimentos sólidos é fundamental. As características do desenvolvimento do bebe que devem ser analisadas pelos pais e profissionais de saúde antes de se iniciar a oferta da alimentação incluem:

  • Capacidade para sentar sem apoio
  • Sustentar a cabeça e o tronco
  • Segurar objetos com as mãos
  • Explorar estímulos ambientais
  • Desaparecimento do reflexo de protrusão
  • Aparecimento dos movimentos voluntários da língua.

Como funciona o BLW?

As publicações sobre o BLW defendem o uso de alimentos in natura, desencorajando a alimentação do lactente realizada na forma tradicional como papinha ou purês. Assim os alimentos devem ser ofertados em formatos de bastões, palitos, meia luas ou rodelas, em tamanho que o bebe consiga segurá-lo com as mãos e levá-lo a boca.

Alguns detalhes incluem:

  • Posicionar o lactente sempre sentado para alimentar.
  • Permitir que o lactente se suje e interaja durante as refeições.
  • Oferecer variedade de alimentos, evitando a monotonia.
  • Interagir com o lactente quando ele estiver comendo junto, durante as refeições.
  • Dar o tempo necessário para a refeição sem pressionar.
  • Não deixar o bebe sozinho com os alimentos. A supervisão dos pais/cuidadores é imprescindível.

Embora o tema BLW tenha ganhado muito destaque nacional e internacionalmente, as investigações científicas sobre os benefícios e riscos ainda estão sendo publicadas no decorrer dos últimos anos. Por isso, alguns profissionais de saúde e os órgãos de entidade ainda não recomendam oficialmente o BLW como método de introdução alimentar exclusivo.

Devido aos diversos questionamentos a respeito do método, como risco de engasgos e de baixa oferta de ferro e de calorias, sugeriu-se uma adaptação ao BLW. O BLW adaptado recebeu o nome de BLISS (Baby-Led Introduction to SolidS), o que significa Introdução aos Sólidos Guiada pelo Bebê. Entre as especificidades do BLISS, destaca-se:

  • Garantir a oferta de um alimento rico em ferro em cada refeição.
  • Ofertar um alimento rico em calorias em cada refeição.
  • Oferecer alimentos preparados de uma forma que reduza o risco de engasgo e evitar os alimentos listados como alto risco de aspiração.
  • Experimentar sempre o alimento antes de oferecer ao lactente, para verificar se não forma um bolo dentro da cavidade oral.
  • Evitar alimentos redondos ou em formato de moedas.

Qual os efeitos do BLW e do BLISS na saúde?

Segundo a autora Gill Rapley, proporcionar que o bebê se alimente sozinho estimula a independência e autonomia, favorece a coordenação motora, estimula a mastigação e a criação de um bom relacionamento do bebe com a comida. O método BLW é uma forma de explorar os diversos sentidos e o contato com variedade de texturas, cores e cheiros.

Sobre efeitos do BLW em longo prazo, ainda existem poucos estudos sobre o tema. Dogan e colaboradores (2018) avaliaram 280 crianças aos 12 meses de idade e analisaram de acordo com a alimentação complementar oferecida: BLW ou método tradicional. Os resultados revelaram que as crianças que estavam no método tradicional apresentaram maior peso do que as do grupo BLW. Não houve diferença estatisticamente significante na ingestão de ferro e nem em parâmetros bioquímicos (ferritina, hemoglobina, hematócrito e demais parâmetros do hemograma) nos dois grupos. A incidência de asfixia relatada nas entrevistas semanais não foi diferente entre os grupos. Entretanto, outros estudos ainda não confirmaram a relação entre o peso e o método BLW.

Daniels e colaboradores (2018) também avaliaram a ingestão de ferro e os exames bioquímicos para avaliar status de ferro em 206 bebes que se alimentavam de forma tradicional ou pela versão adaptada do BLW. Não se observou diferenças na ingestão média de ferro entre os grupos aos 7 e aos 12 meses de idade do bebê. Da mesma forma, não houve diferenças significativas na concentração plasmática de ferritina, ferro corporal, e depleção dos estoques de ferro.

Morison e colaboradores (2018) avaliaram o consumo de variedade de alimentos e as preferências alimentares em lactentes até os 2 anos de idade, de acordo com o método de introdução alimentar BLW adaptado (BLISS) e o método tradicional. Verificou-se que os bebes que se alimentavam do BLISS apresentaram maior variedade de consumo de "carnes e outras fontes proteicas" aos 7 meses de idade e de 'frutas e vegetais' aos 24 meses. Além do mais, aqueles que foram submetidos ao BLISS apresentaram maior variedade de alimentos e texturas.

Cameron et al. (2013) demonstraram que os bebês que receberam o BLW foram mais propensos a consumir os mesmos alimentos ingeridos pela família e menos prováveis de terem recebido alimentos industrializados.

Algumas considerações para a fase de alimentação complementar

Independente da forma de introdução alimentar, há orientações para que os pais identifiquem e respeitem os sinais de fome e saciedade da criança, de forma a evitar a oferta de alimentos contra a vontade do bebe e em quantidades excessivas.

Incentivar o lactente para que ele seja ativo e interativo durante as refeições, com a atenção voltada totalmente para o momento é uma das recomendações da SBP. Evitar a oferta de distrações durante as refeições (brinquedos e dispositivos eletrônicos) facilita com que a atenção da criança esteja voltada para o alimento e para o momento da refeição, estimulando a alimentação consciente.

Além disso, é importante pontuar que este texto NÃO SUBSTITUI as orientações do pediatra e do nutricionista.

*Colaboração da Dra. Deborah Masquio, nutricionista clínica funcional, clínica 12 semanas e pesquisadora da UNIFESP.

Referências:
– Sociedade Brasileira de Pediatria. A Alimentação Complementar e o Método BLW (Baby-Led Weaning). Nº 3, Maio de 2017.
– RAPLEY G, MURKETT, T. Baby-led Weaning: Helping Your Baby to Love Good food (em tradução livre Desmame Guiado pelo Bebê: Ajudando seu Filho a Amar Boa Comida). Vermilion, 2008.
– Dogan E, Yilmaz G, Caylan N, Turgut M, Gokcay G, Oguz MM. Baby-led complementary feeding: Randomized controlled study. Pediatr Int. 2018 Dec;60(12):1073-1080.
– Williams Erickson L, Taylor RW, Haszard JJ, Fleming EA, Daniels L, Morison BJ, Leong C, Fangupo LJ, Wheeler BJ, Taylor BJ, Te Morenga L, McLean RM, Heath AM. Impact of a Modified Version of Baby-Led Weaning on Infant Food and Nutrient Intakes: The BLISS Randomized Controlled Trial. Nutrients. 2018 Jun 7;10(6).
– Daniels L, Taylor RW, Williams SM, Gibson RS, Fleming EA, Wheeler BJ, Taylor BJ, Haszard JJ, Heath AM. Impact of a modified version of baby-led weaning on iron intake and status: a randomised controlled trial. BMJ Open. 2018 Jun 27;8(6):e019036.
– Morison BJ, Heath AM, Haszard JJ, Hein K, Fleming EA, Daniels L, Erickson EW, Fangupo LJ, Wheeler BJ, Taylor BJ, Taylor RW. Impact of a Modified Version of Baby-Led Weaning on Dietary Variety and Food Preferences in Infants. Nutrients. 2018 Aug 15;10(8). pii: E1092.
– D'Auria E, Bergamini M, Staiano A, Banderali G, Pendezza E, Penagini F, Zuccotti GV, Peroni DG; Italian Society of Pediatrics. Baby-led weaning: what a systematic review of the literature adds on. Ital J Pediatr. 2018 May 3;44(1):49.
– Kumar G. Baby-led weaning did not significantly impact body mass index when compared with traditional spoon-feeding. Arch Dis Child Educ Pract Ed. 2018 Aug;103(4):222.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

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