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Antocianinas: como antioxidante presente no açaí protege você de doenças

Paola Machado

21/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Você gosta de açaí? E de uva, morango, jaboticaba, ameixa, framboesa, amora, groselha preta e vermelha? Se a sua resposta for sim, leia esta matéria até o final para saber o que elas têm em comum e como podem ser importantes para a sua saúde.

Cada vez mais é reconhecido que o consumo de frutas, verduras e legumes é essencial para a saúde humana, já que por meio destes alimentos obtemos muitos compostos bioativos com inúmeras funções associadas à prevenção e redução na ocorrência de doenças cardiovasculares e alguns tipos de cânceres. No caso especificamente das frutas mencionadas, a presença de um composto funcional chamado flavonóide, em especial a antocianina, é o causador de alguns benefícios descritos em breve.

O termo antocianina é de origem grega (anthos = flores e kyanos = azul escuro) e é o mais importante grupo de pigmentos de origem vegetal de cor azul, violeta, vermelha e rosa. Quimicamente, esses pigmentos são compostos fenólicos e pertencem ao já mencionado grupo dos flavonóides, amplamente distribuídos no reino vegetal.

Março e colaboradores (2008), discutem em artigo a existência de grande interesse no estudo das antocianinas em diversas áreas, como na saúde, devido ao seu grande potencial terapêutico, na indústria, com destaque para as aplicações na fabricação de vinhos e como corantes naturais. No entanto, a sua utilização apresenta restrições em função de limitações, como a disponibilidade de matéria-prima produtora de pigmentos na quantidade e qualidade requerida, as dificuldades envolvendo processos de obtenção (extração, purificação e isolamento), o poder corante reduzido quando comparado aos produtos sintéticos e, principalmente, a baixa estabilidade apresentada pelas antocianinas.

A seguir, vamos conhecer alguns dos efeitos benéficos deste composto tão diverso e peculiar:

Efeito anticancerígeno

As propriedades anticancerígenas das antocianinas tem sido amplamente estudadas e sabe-se que a sua atuação ocorre impedindo a formação de novos vasos sanguíneos que fornecem oxigênio para o crescimento tumoral; portanto a sua função é antiangiogênese. Em alguns estudos as antocianinas foram extraídas e isoladas de diferentes fontes vegetais com o objetivo de comprovar e elucidar o seu efeito anticâncer (esôfago, cólon, mama, fígado, hematológico e câncer de próstata), com resultados encorajadores.

Controle glicêmico

O efeito "antidiabético" das antocianinas presentes nos alimentos é bastante estudado e mostra-se efetivo no controle da doença. Uma suposta explicação para esta ação foi identificada em estudos feitos com roedores possibilitando a percepção das antocianinas agindo na regulação do mecanismo de secreção de insulina pelas células β pancreáticas, sendo que para algumas variações de antocianinas o aumento na secreção mostrou-se superior em 1,4 vezes mais.

Prevenção de doenças cardiovasculares

Estudos epidemiológicos mostram as relações entre o consumo de alimentos ricos em antocianinas com a redução na ocorrência de DCV (vale reforçar que este não é o único fator existente, mas certamente pode gerar benefícios no campo da prevenção).

As antocianinas demonstraram contribuir com efeito antitrombótico em estudos realizados in vitro. Além disso, estudo realizado por Bell e Gochenaur (2006), revelou que o extrato feito a partir do mirtilo pode favorecer uma reação de vasodilatação e consequente melhora no controle da pressão arterial, da perfusão sanguínea (chegada de sangue aos tecidos), da melhora no processo trombogênico e de disfunção endotelial. Em um outro ensaio clínico, o consumo de morango associou-se positivamente com a melhora do perfil lipídico (Colesterol total e frações) e função plaquetária (relacionada a coagulação) em voluntários saudáveis.

Um estudo brasileiro publicado recentemente por de Rosso e colaboradores (2019), colocou o Brasil como um potencial em relação a mega diversidade de plantas, já que contém cerca de 18% de toda a diversidade existentes no planeta. Em seu estudo, esta diversidade recebe um olhar mais atento no que diz respeito a ação dos carotenóides e dos compostos fenólicos, sendo estes últimos aqueles associados às antocianinas. A pesquisa debruçou-se sobre o bioma brasileiro, principalmente na região amazônica e do cerrado, analisando a composição nutricional de alimentos e seu teor de carotenóides, antocianinas e outros compostos bioativos, sendo as antocianinas extraídas na casca e da polpa da pitanga e da jaboticaba.

O artigo discorre de forma bastante complexa e detalhada sobre vários outros compostos com possíveis efeitos benéficos ao organismo humano, mas ao explicar o efeito positivo especificamente das antocianinas, relatou um mecanismo de ação bastante interessante onde estes pigmentos são convertidos em ácidos fenólicos pela ação de micro-organismos intestinais, tornando-se desta forma ativos e capazes de reproduzir o efeito benéfico desejado.

Voltando então ao começo da nossa conversa, o açaí (Euterpe oleracea Mart.) tem recebido destaque neste cenário, sendo denominados por alguns pesquisadores mais acalorados como "superfruta" já que possui quantidade relevante de antocianina na forma de cianidina 3 glicosídeo e cianidina 3 rutinosídeo. A EMBRAPA também tem se debruçado nesta linha de pesquisa e segue estudando a composição e os benefícios do açaí, e reforça que embora tenhamos perdas no processamento da polpa e na variação de espécies, esta fruta é sim rica neste bioativo.

Portanto, se você gosta de açaí, saiba que este é um alimento promissor e com elevado poder antioxidante, e que os efeitos positivos estão presentes com o consumo em torno de 100 gramas do alimento, embora tenhamos mais pesquisas dando maior enfoque na fruta liofilizada. De qualquer forma, vale saber que o consumo não pode ser esporádico e que a melhor forma de consumir este alimento é a in natura e não com adição de químicos, conservantes, açúcar ou maltodextrina.

*Colaboração da nutricionista comportamental e clínica na clínica 12 semanas Dra. Samantha Rhein (UNIFESP).

Referências:
– Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento – EMBRAPA, Dez 2006.
– de Rosso, V. e colaboradores. Brazilian Biodiversity Fruits: Discovering Bioactive Comppounds from Enderexplored Sources. J. Agri.Food Chemistry.
– GOUVEA e Colaboradores. Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas, 32(1): 43-46, jan-mar. 2012.
– GUIMARAES, Wesson; ALVES, Maria Isabel Ribeiro; ANTONIOSI FILHO, Nelson Roberto. Antocianinas em extratos vegetais: aplicação em titulação ácido-base e identificação via cromatografia líquida/espectrometria de massas. Quím. Nova. São Paulo, v. 35, n. 8, p. 1673-1679, 2012.
– MARCO, Paulo Henrique; POPPI, Ronei Jesus; SCARMINIO, Ieda Spacino. Procedimentos analíticos para identificação de antocianinas presentes em extratos naturais. Quím. Nova. São Paulo, v. 31, n. 5, p. 1218-1223, 2008.
– BELL, D.R; GOCHENAUR, K. Direct vasoactive and vasoprotective properties of anthocyanin-rich extracts. J Appl Physiol. 2006;100(4):1164–1170.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

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