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A sucralose pode ser usada livremente sem trazer riscos à saúde?

Paola Machado

30/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Hoje em dia, a quantidade de produtos industrializados como sucos, iogurtes, refrigerantes, balas, bolos e biscoitos que possuem adoçantes como a sucralose é extremamente elevada. E, por saber que estão livres das "temidas" calorias, muitas pessoas acabam exagerando no consumo desses alimentos. A questão é: podemos usar livremente a sucralose para tudo? Estamos realmente protegidos do ganho de peso ou do diabetes com esses produtos?

Cada vez mais sabemos que o consumo em excesso destes aditivos pode trazer alterações metabólicas indesejáveis e a sucralose tem sido alvo de muitos apontamentos e pesquisas neste sentido, motivo pelo qual vamos dar atenção especial a ela neste texto. A sucralose é considerada um edulcorante sintético e de alta intensidade, obtida a partir da cana de açúcar e que conta com uma capacidade 600 vezes superior aos demais adoçantes para adoçar os alimentos, inclusive quando comparada ao açúcar tradicional (sacarose).

A utilização da sucralose (e outros adoçantes) é reconhecida por diversas instituições, como a American Heart Association, com a finalidade de favorecer a redução de calorias consumidas, a manutenção do peso corporal e também o tratamento de diabetes ou intolerância à glicose. Porém, nenhuma das renomadas instituições que a reconhecem reforçam que o seu uso não substitui a prática regular de exercícios físicos, nem tão pouco uma alimentação equilibrada.

Uso da sucralose não traz riscos?

Em 1998, o uso da sucralose foi aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration) e regulamentado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), com base em vários estudos científicos que demonstravam efetividade e segurança em seu uso. Porém, as descobertas das pesquisas são muito dinâmicas e em duas décadas novas evidências surgiram. Por isso, aumentou-se a discussão sobre alguns riscos e vulnerabilidades  da sucralose.

Assim como os demais adoçantes, a sucralose possui um limite de ingestão diária aceitável de 15 mg/kg de peso corporal. Grande parte das pesquisas até o momento demonstram que, dentro deste limite, sua utilização é segura e pode ser feita por toda a vida, conforme estabelecido por um comitê conjunto da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Vale explicar que este consumo seguro foi atribuído por estudos toxicológicos e embasado pelo fato deste aditivo ser pouco absorvido no intestino e praticamente todo eliminado nas fezes. No entanto, um número crescente de estudos clínicos e experimentais sugere que os adoçantes artificiais, especialmente a sucralose, podem associar-se ao desenvolvimento de anormalidades metabólicas, incluindo a resistência à insulina, intolerância à glicose e até estados inflamatórios mais discretos.

O provável mecanismo induzido pela sucralose que está por trás destas hipóteses é que este aditivo tem a capacidade de ativar a percepção do sabor doce em células do pâncreas, estimulando a liberação de insulina; no caso de alguns estudos em ratos, ocorre também a liberação de peptídeos do tipo glucagon pelas células L intestinais, o que proporciona efeito positivo na saciedade e controle dos níveis de açúcar. No entanto, esta última ação quando estudada em humanos foi evidenciada numa proporção bastante reduzida, o que exalta o provável efeito deletério do uso da sucralose, associado com a elevação nos níveis de insulina circulantes. Outros estudos na mesma linha de pesquisa apontam uma provável diminuição na sensibilidade (e consequente efeito) da insulina, podendo reproduzir um estado constante de concentrações mais altas de glicose e insulina em consumidores habituais.

Pesquisas também têm investido no olhar com relação à microbiota intestinal e os resultados descrevem que os edulcorantes artificiais (principalmente a sucralose), podem gerar uma disbiose intestinal ou alteração no equilíbrio da população intestinal saudável, afetando negativamente o metabolismo da glicose. Esta relação pode estar associada ao consumo excessivo da sucralose, no caso quantidades iguais ou superiores a 48 mg/Kg de peso diariamente. Com a finalidade de esclarecer estes achados, Thomson e cols realizaram uma pesquisa com ratos, que reforçou esta alteração negativa na flora intestinal e consequentemente no controle glicêmico em voluntários.

Os autores avaliaram seres humanos com idade entre 18 a 50 anos, peso estável e IMC com perfil de normalidade até sobrepeso, como critério de inclusão adotou-se a ausência na prática de exercício físico regular ou utilização de qualquer medicamento num período de 3 meses. Os voluntários foram pareados em 2 grupos semelhantes e, durante 7 dias consecutivos, receberam três vezes ao dia uma solução de sucralose (grupo experimento) ou de glicose (grupo controle). No final do período de intervenção, foram analisadas amostras fecais e exames de glicemia e insulina para verificação do controle glicêmico. As análises finais demonstraram que em pacientes que tiveram a ingestão de sucralose, o nível de açúcar circulante foi levemente superior sem grande expressão, deixando em aberto ainda a confirmação desta condição metabólica.

Em resumo, os dados apresentados trazem à luz uma discussão importante e ainda incerta, sobre o consumo excessivo e por vezes desnecessário dos adoçantes, na busca de um padrão de saúde e estético que não se sustenta nesta prática. O grande benefício, portanto, ainda baseia-se na incorporação de hábitos de vida mais saudáveis e voltados para a prática de exercícios físicos cotidianos, a manutenção da boa saúde mental e uma alimentação equilibrada, afastando o que artificial e sintético.

*Colaboração da nutricionista comportamental e clínica na clínica 12 semanas Dra. Samantha Rhein (UNIFESP).

Referências:
– www.anvisa.gov.br
– www.ilsibrasil.org
– Romo – Romo. A et cols,. Sucralose decreases insulin sensitivity in healthy subjects: a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr 2018;108:485–491.
– Thomson et col., Short Termo f Sucralose Consumption on the Metabolic Response and Gut Microbiome of Health adults. Cambridge University Press: 13 September 2019

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

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