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Mais que a barriga: consumo de refrigerante aumenta o risco de morte

Paola Machado

20/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Quando tinha 11 anos, lembro que estava mexendo no computador. Naquela época, a internet era discada e tínhamos acesso a plataformas como MIRC e ICQ –quem se lembra? Nunca me esqueço disso. Além do computador com internet discada, lembro que nessa época todos em casa tinham hábito de tomar refrigerante.

Eu era nova. Quando sentava em frente ao "micro" para entrar nas famosas salas de bate  bate-papos, levava junto comigo uma garrafa de 2 litros de refrigerante. Um dia, bebi tanto que passei mal e me questionei: "Como eu estarei daqui a 10 anos tomando refrigerante?". Refleti e, de um dia para o outro, deixei de consumir a bebida. Faz 23 anos que não tomo nenhum tipo de refrigerante.

Quem lê a coluna sabe o quanto sou a favor de ponderar e não restringir. Porém, isso é válido para alimentos que têm lados bons e lados não tão bons. Mas temos alimentos e bebidas, principalmente, que praticamente não têm benefício algum para saúde. Um deles é o refrigerante. E isso é válido para qualquer refrigerante, já que o refrigerante não tem nenhum teor nutritivo e é composto por sódio, conservantes, colorantes, além de muitos outros compostos que não são legais para nosso organismo. Ah, nem preciso falar que os refrigerantes normais também possuem muito açúcar, né?

A ingestão da bebida para alguns é um hábito, para outros um vício e alguns outros não fazem questão de tomar "refri", mas tomam mesmo assim. Para o pessoal que bebe refrigerantes regularmente — almoço, jantar, durante o dia ou até mesmo no café da manhã –, saiba que o consumo não apenas favorece o aparecimento de doenças como diabetes ou obesidade como também pode aumentar o risco de morte prematura.

Uma pesquisa publicada no JAMA no final de 2019, com o título "Association between soft drink consumption and mortality in 10 european countries", associou o consumo de refrigerantes adoçados com açúcar ou artificialmente (Os famosos zero ou diet) ao aumento do risco de morte e em 10 países europeus —Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Holanda, Noruega, Espanha, Suécia e Reino Unido, que fazem parte do Estudo Europeu sobre Câncer e Nutrição.

O estudo analisou os hábitos alimentares de mais de 450.000 pessoas por mais de 16 anos. Reforço a importância de avaliarem quando o artigo tem relevância; percebam que a amostra é gigante, a revista tem grande impacto e o estudo foi longo? Esses são três critérios básicos para mostrar o quão importante foi essa pesquisa.

Os indivíduos que bebiam dois ou mais copos de refrigerantes com açúcar ou adoçados artificialmente por dia tinham um risco maior de morte por qualquer causa do que os participantes que bebiam menos de um copo por mês. Os  pesquisadores apontaram para um risco aumentado de morte causada por doenças cardiovasculares, como infarto ou AVC, associado ao consumo de dois ou mais copos por dia de refrigerantes e um risco aumentado de morte por doenças digestivas associadas ao consumo de um ou mais copos por dia. É importante destacar que o consumo de refrigerantes não significa consequente morte prematura, e sim o aumento do risco de problemas.

Sabemos que o consumo regular de refrigerantes açucarados aumenta a ingestão de energia (calorias), o que pode levar ao ganho de peso e à obesidade. Em 2010, estimou-se que a carga global de doenças cardiovasculares, cânceres e diabetes tipo 2 associados à obesidade relacionada ao consumo de açúcar de refrigerantes açucarados foi de 184.000 mortes.

Os resultados do presente estudo mostraram que 9,3% dos entrevistados — a amostra reuniu mais de 450.000 pessoas de diferentes países europeus — que beberam menos de um copo de refrigerante por mês morreram durante a investigação. A porcentagem de mortes aumenta para 11,5% no caso dos indivíduos que consumiram dois ou mais copos dessas bebidas por dia. É necessário considerar que o estudo não incluiu indivíduos com patologias como câncer, doenças cardíacas ou diabetes.

Em uma segunda fase da investigação, fatores como índice de massa corporal, dieta, atividade física, tabagismo e educação foram incluídos como fatores, aumentado o risco de morte prematura em 17% para aqueles que consumiram dois ou mais copos de bebidas adoçadas artificialmente.

Embora o consumo frequente de refrigerantes com açúcar esteja associado a um risco aumentado de morte por doenças circulatórias e Parkinson, os refrigerantes "leves" estão relacionados a mortes por doenças digestivas. Por outro lado, não foi observada relação entre o consumo de refrigerantes e a mortalidade por câncer.

O maior estudo já realizado

Este é o maior estudo realizado até o momento para investigar a associação entre consumo de refrigerante e mortalidade. Os autores do estudo sugerem que os resultados apoiam iniciativas de saúde pública para limitar o consumo de refrigerantes.

Os pesquisadores reconhecem as imitações do atual estudo, enfatizando a necessidade de continuarem trabalhando na realização de mais estudos para investigar os possíveis efeitos adversos à saúde dos adoçantes artificiais. "Dado o desenho observacional do estudo, não é possível estabelecer a causalidade entre o consumo de refrigerante e a mortalidade. Reconhecemos que as associações observadas podem estar enviesadas devido à confusão residual. Entretanto, o grande número de participantes e óbitos registrados permite a análise de outros fatores de risco e, em geral, associações semelhantes são observadas. Além disso, a análise de controle negativo não encontrou associações entre o consumo de refrigerantes e as mortes ocorridas por causas externas".

Referências:
– Mullee A, Romaguera D, Pearson-Stuttard J et al. Association between soft drink consumption and mortality in 10 European countries. JAMA Internal Medicine. 2019;179:1479-1490.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

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