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Alimentação no hipotireoidismo: veja o que incluir e o que evitar

Paola Machado

23/01/2020 04h00

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Como já escrevi aqui, a tireoide (ou tiroide) desempenha papel fundamental no nosso organismo. A função da glândula tireoide é produzir os hormônios tireoidianos, que atuam em cada célula do nosso organismo, controlando a dinâmica da atividade dessas células e, em última análise, regulando o metabolismo do corpo. Ela é a grande gestora da sua atividade diária, atuando no processo de gasto calórico, produção energética, retenção de líquido, estímulo de apetite, ganho de peso, qualidade de sono, concentração, libido, fluxo menstrual, entre outras tantas variáveis que participam diretamente da nossa qualidade de vida.

A atividade tireoidiana é regulada por um hormônio hipofisário, o "hormônio estimulador da tireoide" ou TSH. Essa substância é produzida na hipófise e tem sua síntese controlada por outro hormônio, o TRH. A produção tem regulação por feedback negativo dada pela presença de T3 e T4 circulantes.

A tireoide secreta, principalmente, dois hormônios relacionados ao iodo, a tetraiodotironina (T4) e a triiodotironina (T3), que é a forma ativa do hormônio tireóideo.

Quando há uma secreção anormal de T4, ocorre uma aceleração metabólica basal em até quatro vezes. Uma pessoa com atividade alta da tireoide pode perder peso rapidamente e ter diversos outros sintomas que, em conjunto, levam à doença conhecida como hipertireoidismo. Em contrapartida, o hipotireoidismo é caracterizado por uma atividade baixa da tireoide e leva a uma redução da taxa metabólica basal, o que resulta no aumento de peso corporal e composição de gordura. Vale lembrar que menos de 3% das pessoas obesas mostram funções tireoidianas anormais.

O metabolismo corporal é influenciado por esses hormônios, sendo que na fisiologia normal do corpo humano uma redução da taxa metabólica basal estimula a liberação hipotalâmica de TSH, aumentando a produção por parte da tireoide e elevando o metabolismo de repouso, em um mecanismo de feedback.

No texto de hoje reforçarei a alimentação para quem sofre de hipotireoidismo, que conta com sintomas como:

  • Taxa metabólica reduzida e intolerância ao frio, pela produção reduzida de calor interno.
  • Menor síntese de proteínas que produz unhas quebradiças, pelos e cabelos mais finos e pele seca e fina.
  • Atividade reflexa deprimida, lentidão da fala e dos processos ideativos e sensação de fadiga.
  • Frequência cardíaca lenta (bradicardia) e mais inúmeros sintomas associados.

O hipotireoidismo afeta de 1% a 2% das pessoas em todo o mundo e tem dez vezes mais chances de afetar mulheres do que homens. Só os alimentos não curam o hipotireoidismo. No entanto, uma combinação dos nutrientes e medicamentos nas doses adequadas e orientados pelo médico pode ajudar a restaurar a função da tireoide e minimizar seus sintomas.

Como o hipotireoidismo pode afetar o metabolismo?

O hormônio da tireoide ajuda a controlar a velocidade do seu metabolismo. Quanto mais rápido seu metabolismo, mais calorias seu corpo queima em repouso. Pessoas com hipotireoidismo produzem menos hormônio da tireoide e isso significa que eles têm um metabolismo mais lento –queimando, consequentemente, menos calorias em repouso.

Ter um metabolismo lento traz vários riscos à saúde. Isso pode deixá-lo cansado, aumentar seus níveis de colesterol no sangue e dificultar a perda de peso. Uma pesquisa mostrou que o exercício aeróbico de moderada a alta intensidade junto com a musculação pode ajudar a aumentar os níveis de hormônio da tireoide. Por sua vez, isso pode ajudar a acelerar ou normalizar seu metabolismo. Pessoas com hipotireoidismo também podem se beneficiar do aumento da ingestão de proteínas. Pesquisas mostram que uma alimentação rica em proteínas ajuda a aumentar a taxa do seu metabolismo.

Nutrientes importantes

Vários nutrientes são importantes para a saúde ideal da tireoide, dentre eles:

  • Iodo: O iodo é um mineral essencial necessário para produzir hormônios da tireoide. Assim, pessoas com deficiência de iodo podem estar em risco de desenvolver um hipotireoidismo. A deficiência de iodo é muito comum e afeta quase um terço da população mundial. Se você tiver uma deficiência de iodo, considere adicionar sal de mesa iodado às refeições ou consumir mais alimentos ricos em iodo, como algas, peixes, laticínios e ovos. A ingestão de suplementos de iodo não são necessárias, pois você pode obter bastante iodo pela sua dieta e alguns estudos também demonstraram que o excesso desse mineral pode danificar a glândula tireoide.
  • Selênio: O selênio ajuda a "ativar" os hormônios da tireoide para que possam ser usados ​​pelo organismo. Esse mineral essencial também possui benefícios antioxidantes, o que significa que pode proteger a glândula tireoide de danos causados ​​por moléculas chamadas radicais livres. Adicionar alimentos ricos em selênio à sua dieta é uma ótima maneira de aumentar seus níveis de selênio. Isso inclui castanha-do-Pará, atum, sardinha, ovos e legumes. No entanto, evite tomar um suplemento de selênio, a menos que seja recomendado pelo seu médico. Os suplementos fornecem grandes doses e o selênio pode ser tóxico em grandes quantidades.
  • Zinco: Como o selênio, o zinco ajuda o corpo a "ativar" os hormônios da tireoide. Estudos também mostram que o zinco pode ajudar o corpo a regular o TSH, o hormônio que instrui a glândula a liberar hormônios da tireoide. As deficiências de zinco são raras nos países desenvolvidos, pois o zinco é abundante no suprimento de alimentos. No entanto, se você tiver hipotireoidismo, deve consumir mais alimentos ricos em zinco, como ostras e outros frutos do mar, carne e frango.

Alimentos que devem ser evitados ou consumidos com moderação

Vários nutrientes podem prejudicar a saúde das pessoas com hipotireoidismo, são eles:

  • Goitrogênios: São compostos que podem interferir no funcionamento normal da glândula tireoide. Muitos alimentos comuns contêm goitrogênios, incluindo alimentos de soja, alguns vegetais (couve, brócolis, couve-flor, espinafre etc), frutas e plantas amiláceas (batata-doce, mandioca, pêssego, morango etc), nozes e sementes (milho, pinhões, amendoins etc). Em teoria, pessoas com hipotireoidismo devem evitar goitrogênios. No entanto, isso só parece ser um problema para pessoas que têm uma deficiência de iodo ou consomem grandes quantidades de goitrogênio. Além disso, cozinhar alimentos com goitrogênios parece inativar esses compostos. Uma exceção aos alimentos acima é o milheto. Alguns estudos descobriram que o milheto pode interferir na função da tireoide, mesmo se você não tiver uma deficiência de iodo. Por isso, os alimentos que contêm goitrogênios devem ser consumidos com moderação e cozidos de maneira ideal.
  • Alimentos altamente processados: Eles geralmente contêm muitas calorias e isso pode ser um problema se você tiver hipotireoidismo, pois pode ganhar peso facilmente.
  • Milho.
  • Suplemento de selênio: A ingestão adequada de selênio e iodo é essencial para a saúde da tireoide, mas a ingestão excessiva de ambos pode causar danos. Apenas complete com selênio e iodo se o seu médico o instruir.

Moderação

Aqui está uma lista de alimentos que você pode comer com moderação.

  • Alimentos à base de soja: Tofu, tempeh, feijão edamame, leite de soja etc.
  • Vegetais crucíferos: Brócolis, couve, espinafre, repolho etc.
  • Certas frutas: Pêssegos, peras e morangos.
  • Certas bebidas: Café, chá verde e álcool –essas bebidas podem irritar a glândula tireoide.

Quando você tem uma condição crônica como hipotireoidismo, não tente formatar um plano alimentar sozinho. Comece com uma visita ao seu médico e ao nutricionista, que pode ajudá-lo a identificar quais alimentos podem causar interações ou outros problemas com o seu medicamento para tireoide. Em seguida, trabalhe com um nutricionista, que pode ajudá-lo a desenvolver um plano alimentar saudável e amigável para a tireoide.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.

Paola Machado