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Parecer "viciado" em açúcar pode ter explicação no "sistema de recompensa"

Paola Machado

28/02/2020 04h00

iStock

Você é uma daquelas pessoas que adora colocar açúcar em tudo e sente falta daquele gostinho característico quando não adoça um suco, o cafezinho ou até uma fruta?

O açúcar é um ingrediente bastante estudado, principalmente nos dias atuais, quando é abundantemente adicionado aos alimentos com o objetivo de conservação ou para torná-los mais palatáveis; porém o que é imprescindível lembrar é que o açúcar, independentemente de ser refinado, mascavo ou demerara, traz efeitos não só ao pâncreas (no estímulo para a liberação de insulina) ou no tecido adiposo como forma de estoque por um mecanismo chamado de lipogênese, mas também para outros órgãos como o cérebro.

Durante consulta, muitas pessoas dizem que o final da tarde ou o começo da noite é um dos momentos mais críticos do dia, pois é quando aquela vontade incontrolável de comer doce vai chegando. Temos várias explicações que podem respaldar esta vontade, como a grande restrição de alimentos fonte de carboidratos ao longo do dia ou até mesmo o longo período sem se alimentar, porém outra mais recente recebe o nome de sistema de recompensa, e está sendo cada vez mais estudado, embora os resultados sejam ainda inconclusivos, porém interessantes.

Para saciar este desejo pelo doce, muitas substâncias são liberadas, sendo uma delas a dopamina, que ativa uma via chamada de mesolímbica. Vale ressaltar que o sistema de recompensa pode ser encarado como uma função adaptativa, relacionada ao cumprimento de nossas vias básicas de sobrevivência; logo, se você ceder a este desejo, o mesmo será "reconhecido" e ativado trazendo à tona uma grande sensação de prazer, que reforça o quão "gostoso" é comer alimentos doces, no caso do nosso exemplo atual, e a mesma será frequentemente ativada em situações muito semelhantes.

Algumas literaturas apontam que este caminho é muito difícil de ser revertido, e o que é ainda mais preocupante: ele pode criar uma espécie de tolerância que terá como consequência o aumento da dose para induzir a mesma sensação, fazendo com que muitos pesquisadores associem esta vontade do consumo de açúcar a mesma sensação induzida pelo consumo de outras drogas configurando portanto, um vício.

Este é certamente um assunto muito interessante e que traz à tona muitas pesquisas na tentativa de esclarecer claramente os mecanismos que ainda são desconhecidos em sua totalidade. Estudos recentes em camundongos demonstram que a alimentação rica em gorduras saturadas (alimentos de origem animal como carnes, manteiga, embutidos), tem a capacidade de produzir um ambiente metabólico inflamatório, que também incide em nosso sistema nervoso central, prejudicando a sinalização de muitos impulsos nervosos, inclusive aqueles de controle da sensação de fome.

Ao traçarmos um paralelo com a alimentação atual da maior parte da população brasileira e mundial, encontraremos elevada frequência no consumo de alimentos industrializados e, consequentemente, com elevado teor de açúcares e gorduras saturadas, reforçando o cenário descrito anteriormente.

Pesquisas realizadas em camundongos demonstram que estes animais, quando alimentados com dietas ricas em açúcares, sofrem perda de funcionalidade de neurônios, dificultando a percepção da sensação de saciedade e, consequentemente, o ato de parar de se alimentar, o que pode inclusive prejudicar a capacidade de fazer melhores escolhas alimentares, já que existe uma busca quase irracional, e quase sempre emocional, por alimentos conhecidos como palatáveis e não necessariamente saciadores, como os vegetais e os integrais. Muito importante destacar que estamos fazendo um recorte deste aspecto multifatorial, trazendo para a discussão um dos aspectos de limitar a escolha alimentar consciente e movida por reflexão, não exclusivamente por emoções.

As pesquisas nesta área da ciência são promissoras, mas muitas devem ser replicadas em humanos para observarmos se os desfechos acontecem de forma similar ou ainda idêntica. Porém, uma pesquisa feita recentemente pelo pesquisador Richard Stevenson em humanos, e que objetivou medir qual era a real capacidade que os voluntários tinham de controlar o seu consumo por petiscos altamente palatáveis, em condições de saciedade ou de fome, foi percebido que naqueles voluntários que comiam de forma regular alimentos ricos em gorduras e açúcar, a atitude de comer mesmo sem fome, foi mais frequente.

Logo, uma pergunta veio à tona: o açúcar pode viciar? Esta afirmação é muito tendenciosa e, portanto, difícil de ser respondida, porém alguns pesquisadores já conseguiram levantar a hipótese de que o açúcar atua no nosso corpo de muitas formas, mas no cérebro, em especial, de maneira bastante semelhante a do tabaco, álcool ou outras substâncias que podem causar dependência. Algumas das áreas identificadas neste processo foram a da amídala basolateral e do córtex pré frontal, que constituem áreas de estudo do sistema de recompensa.

No entanto, muito ainda temos que estudar e compreender, inclusive o mecanismo pelo qual outras substâncias, como o sal e os edulcorantes (aspartame, sucralose e estévia), atuam neste mesmo sistema, já que a complexidade de nosso cérebro é grande e os mecanismos envolvidos são múltiplos, porém é certo que o controle e consumo mínimo do açúcar de adição é uma necessidade real, seja para evitar o desenvolvimento do diabetes ou obesidade, seja para evitar o despertar deste nosso sistema de recompensa, ainda incompreendido.

*Colaboração da nutricionista comportamental e clínica na clínica 12 semanas Dra. Samantha Rhein (Unifesp)

Referências:

– Wolfram Schultz. Predictive Reward Signal of Dopamine Neurons. J. Neurophysiol. 80: 1–27, 1998.

– Miguel Alonso-Alonso, Stephen C. Woods, Marcia Pelchat, Patricia Sue Grigson, Eric Stice, Sadaf Farooqi, Chor San Khoo, Richard D. Mattes, and Gary K. Beauchamp. Food reward system: current perspectives and future research needs. Nutrition ReviewsVR Vol. 73(5):296–307.

Sobre a autora

Paola Machado é fisiologista do exercício, formada em educação física modalidade em saúde pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), mestre em ciências da saúde (foco em fisiologia do exercício e imunologia) e doutoranda em nutrição pela UNIFESP. É autora do Livro Kilorias - Faça do #projetoverão seu estilo de vida (Editora Benvirá). Atualmente, atua como pesquisadora, desenvolvendo trabalhos científicos sobre obesidade, e tem um canal de desafios (30 Dias com Paola Machado) onde testa a teoria na prática. Também é fundadora do aplicativo aplicativo 12 semanas. CREF: 080213-G | SP

Sobre a coluna

Aqui eu compartilharei conteúdo sobre exercício e alimentação para ajudar você a encontrar o caminho para um estilo de vida mais saudável. Os textos são cientificamente embasados e selecionados da melhor forma possível, sempre para auxiliar no seu bem-estar. Mas, lembre-se: a informação profissional é só o primeiro passo da sua nova jornada. O restante do percurso depende 100% de você e da sua motivação para alcançar seu objetivo.